O Parlamento poderá debater em breve a legalização das “barrigas de aluguer” em Portugal. Em condições específicas, ainda a acertar, poderá ser possível a mulheres sem útero viável a opção pela chamada “maternidade de substituição”. O Conselho de Procriação Medicamente Assistida aprova a medida, desde que não haja lugar a qualquer tipo de remuneração da gestante e que não se utilize material genético de outra mulher que não a futura mãe. Sobre este assunto, o Mente Despenteada partilha aqui o testemunho de uma mulher que poderá beneficiar da nova lei. Um testemunho que poderá lançar alguma luz para o debate que se adivinha aceso…
Durante anos sonhei ser mãe. Acho que desde sempre. Se não desde que nasci, pelo menos desde que tomei consciência de mim. De que era menina, de que seria mulher, e provavelmente mãe. Sonhei ter muitos filhos. Dizia a toda a gente que haveria de ter uma equipa de futebol. Mais tarde reduzi para oito esse sonho, e mais tarde ainda percebi que talvez me ficasse por um ou dois, com sorte três, como teve a minha mãe. Dei-lhes nomes, cores dos olhos, caracóis aos cabelos que adivinhava serem loirinhos. Imaginei-me de mil maneiras a dar ao futuro pai a notícia de que iria sê-lo. Mas nem o futuro pai foi sempre o mesmo. Houve dois, tantos quantos os companheiros que tive na minha vida afectiva adulta. Pelo meio, aos meus 22 anos, houve até um susto: um teste de farmácia que deu positivo. Era um falso positivo, e saber disso trouxe-me naquela altura um alívio que hoje talvez lamente.
Hoje sei que nunca serei mãe. Biológica, pelo menos. Há pouco mais de um ano perdi o útero no bloco operatório. Teve de ser. Aos 36 anos vi sepultado, sem apelo nem agravo, o meu sonho de ser mãe. De ter a tal equipa de futebol a correr pela casa, o repensado anseio de ter oito filhos, ou mesmo o mais modesto anseio de ter dois ou três. Um filho que fosse. Hoje sei que não terei nenhum, pelo menos que seja gerado dentro de mim e nascido de mim. Tal como eu, o futuro “pai dos meus filhos” foi também privado desse sonho que era dele como era meu. Pelo menos comigo… Somos dois, e seremos para sempre dois. Sempre acalentei o desejo de ser mãe, e tive sempre uma espécie de magia que atrai para junto de mim os mais pequenos. Eles abeiram-se de mim, fazem-me perguntas, sentam-se ao meu colo, perguntam por mim quando não estou ali ao pé. Eles gostam de mim. E eu gosto deles. Deles e delas. De todos. Mas sei que eles serão sempre eles, os filhos dos amigos e conhecidos. Deles, nunca meus.
Ao longo dos meses em que fui tomando maior noção desta realidade que é minha, e que via e sentia como sendo apenas minha, de que fatalmente perderia a capacidade de ser mãe, já de si muito diminuída por um corpo pouco colaborante, que se deixava adoecer e que me fazia sofrer física e psicologicamente, conheci outros casos de mulheres com o mesmo problema. Mulheres que lutavam pela concretização do seu sonho de serem mães, casais que se submetiam a vários tratamentos de infertilidade, alguns com sucesso, outros, talvez a maioria, com dificuldade, com problemas, com abortos sucessivos que lhes roubavam a alegria do primeiro diagnóstico. Havia também mulheres grávidas. Geralmente mais novas, muito mais novas do que eu e do que essas mulheres em dificuldades. Mulheres quase adolescentes ainda, que às vezes por mero descuido ou distracção engravidavam.
Convenci-me, e continuo convencida, de que normalmente a gravidez é tanto mais fácil quanto mais jovem é a mulher. Sem vícios anticoncepcionais de anos e anos, sem adiamentos em favor dos estudos, da profissão, do surgimento das condições ideais para ter um filho, cada vez mais impossíveis de alcançar, elas simplesmente engravidavam. Sem pressão, sem stress, sem sequer terem pensado muito nisso. Engravidavam e pronto. Tudo corria bem, porque eram mulheres jovens e saudáveis, e nove meses depois eram mães e mulheres felizes ao lado dos seus bebés e dos companheiros com quem os tinham gerado. Outras eram mães solteiras, e são, mas felizes por terem tomado nos braços aquele que será para sempre o amor maior das suas vidas. Valeu a pena “estragarem” as suas vidas com uma gravidez precoce? Valeu. De certeza.
Intuição negativa…
Às vezes penso que também eu poderia ter tido filhos. Aos 20, aos 25, aos 30. Talvez tenha tido oportunidade para isso se, ao contrário do que penso, já não fosse estéril nesse tempo. Muita gente sorria e dizia “não penses nisso” sempre que eu dizia sentir que nunca seria mãe. Parece que estava certa. Parece que a minha intuição é realmente tão forte como eu sempre pensei que fosse. Nunca serei mãe. São estas palavras que, como martelos, esburacam todos os meus fios de pensamento… Mas hoje as famílias são muito diferentes do que eram nos meus tempos de infância, em que pensava vir a ter resmas de crianças a correr à minha volta! Em Portugal as pessoas casam-se cada vez menos, divorciam-se mais e têm cada vez menos filhos. O país está a envelhecer impiedosamente. E se antes era relativamente comum ver-se grávidas com 35 ou 40 anos, hoje são cada vez menos as que engravidam nessa altura da vida. Na verdade, ainda antes dessas idades, são cada vez mais as mulheres que sentem dificuldade em engravidar e que por essa razão procuram apoio médico.
Eu fui uma dessas mulheres, e logo por volta dos meus 30 anos. Não porque quisesse engravidar (as circunstâncias da vida nunca o permitiram, apesar da imensa vontade de ser mãe desde que me lembro de ser gente), mas por sucessivos problemas de saúde que me impeliram a desconfiar, com razão, de que algo não estava bem comigo e de que dificilmente conseguiria concretizar o sonho de ser mamã. Há quem acredite que não sendo mãe uma mulher é apenas meia mulher. Incompleta. Imperfeita. Esse foi o meu maior receio quando soube que seria alvo de uma histerectomia total. A remoção do útero, um pedaço de mim que deveria ter acolhido o meu amor maior mas que, em vez disso, se deixou avariar e apodrecer, doeu-me como se fosse um dente arrancado a frio, com requintes de malvadez. Teve de ser, e reconheço que foi melhor assim. Melhor para mim, para a minha saúde. Mas… e para os meus filhos que nunca chegarei a conhecer? E para o homem que comigo sonhou ajudar a povoar a terra?
A esterilidade traz insegurança. Traz dúvidas. Traz medo. Traz desalento e tristeza. Nos dias que se seguiram à cirurgia senti-me incrivelmente frágil, incomensuravelmente sozinha, apesar dos muitos olhares atentos, sorrisos carinhosos, palavras doces e gestos de ajuda que recebi. Soube que tinha imensa gente ao meu lado, mas talvez nenhuma imaginasse aquilo que me percorria o pensamento: “nunca” é uma palavra medonha. É como uma espada que nos corta a vida a meio, que nos ceifa o pensamento e a capacidade de agir normalmente. Sempre que vejo uma criança pequena dou comigo a pensar que nunca terei uma minha. Sempre que um bebé sorri na minha direcção sinto um raio de sol a brilhar sobre mim, como se aquele sorriso me dissesse “não sou teu filho mas poderia ser, e seria certamente muito feliz por isso”.
Penso em adoptar. No futuro, quem sabe? Será que consigo? Será que o Estado me reconhece o direito de traduzir em realidade o meu maior sonho de sempre? Sei que amarei os meus filhos adoptivos como se os tivéssemos gerado, eu e a pessoa que amo, no meu ventre. Mas, e eles? Serão capazes de me amar incondicionalmente, sem reservas e sem receios? É por esta razão que vejo com bons olhos a abertura do Parlamento para debater a legalização das barrigas de aluguer em Portugal. Porque não tenho útero, mas ainda tenho ovários. Porque tenho em mim um sonho. Porque antes mesmo de pensar que isso poderia ser legal em Portugal dei por mim a pensar em fazê-lo. Porque seria a solução para muitas mulheres como eu e muitos casais como nós. Porque eu mereço. Porque a pessoa que está comigo merece, muito, ser pai. Seria um pai maravilhoso, tenho a certeza. Tenho enorme expectativa para ver no que dá este debate. Será sempre um acto de coragem acrescida ver um filho ser gerado num corpo que não o nosso. Será em certa medida estranho não poder sentir o primeiro pontapé, todas as coisas que nos dizem que uma grávida sente. Mas valerá a pena, certamente. Oxalá a decisão pondere a necessidade de tantas mulheres como eu, e oxalá venha a tempo de lhes permitir a imensa felicidade de um dia ouvirem alguém chamar-lhes mãe…

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