Há alguns anos, tive o grato prazer de entrevistar Novais Barbosa, então reitor da Universidade do Porto, a propósito do Processo de Bolonha. Nessa altura, o “processo” era um mistério, em torno do qual pululavam mais perguntas do que respostas, e muitas, muitas opiniões. No entanto, talvez apenas hoje, em Braga, tenha realmente percebido o quanto o dito “processo” afectou a realidade do Ensino Superior em Portugal e nos restantes 44 países que entretanto aderiram àquela medida de reorganização dos cursos. No curso que frequentei, por exemplo, as mudanças foram evidentes: além do nome – que passou de “Licenciatura em Comunicação Social” para “Licenciatura em Ciências da Comunicação” –, a introdução das regras de Bolonha fez com que a estrutura curricular sofresse uma redução ainda mais notória da carga horária do que é comum noutros cursos: é que a maioria dos cursos existentes até à reformulação tinha a duração de quatro anos, enquanto o curso de Comunicação Social da Universidade do Minho tinha cinco.No meu tempo, cada um dos primeiros quatro anos da licenciatura era composto por seis cadeiras anuais, e no quinto ano havia seis disciplinas semestrais e um estágio com a duração de um semestre. Actualmente, existem 12 cadeiras semestrais, ao longo de três anos, mas no final não há qualquer estágio. Ou seja, enquanto eu teria de obter aprovação em 24 cadeiras anuais, seis semestrais e um estágio prático em ambiente laboral, e só assim daria por completa a minha formação de nível superior (que não dei ainda, porque deixei “penduradas” duas semestrais e uma anual, os estudantes do “mesmo” curso têm agora de fazer apenas 36 cadeiras semestrais. Perdoem-me os mais entusiastas do Processo de Bolonha, mas eu acho que a coisa os favoreceu um pedaço! Têm disciplinas com menor carga horária, perdem menos tempo na Universidade (é menos tempo a pagar propinas), e no fim saem do curso sem terem sequer feito um estágio numa qualquer empresa real.
Para cúmulo, se eu quisesse terminar o meu curso neste momento, apesar de lá ter andado mais tempo do que qualquer um dos actuais estudantes, e de ter obtido aprovação a tantas ou mais disciplinas do que alguns deles, provavelmente ainda teria de lá perder uns tempos, visto que as cadeiras que me faltam simplesmente deixaram de estar contempladas no plano de estudos da nova licenciatura. Por outro lado, sei de fonte segura que as empresas preferem contratar licenciados da “velha” guarda, antes de Bolonha, apesar de – há que reconhecê-lo – o novo plano de estudos ter uma maior componente prática e uma orientação mais feliz para as áreas multimédia, cada vez mais importantes no exercício do Jornalismo, da Assessoria de Imprensa, das Relações Públicas e das áreas afins.
E é por isso que ainda não descortinei que valeu a pena saltar da cama, às 8h30 da madrugada de hoje, para rumar à magnífica cidade de Braga e perscrutar as hipóteses de, agora que estou no desemprego, dar continuidade à minha formação universitária e, numa altura em que nem sei se alguma vez voltarei a ser jornalista, concluir a minha licenciatura em Comunicação Social (ou Ciências da Comunicação, whatever...). O tempo dirá.
O nome da licenciatura é o que menos importa, creio. Aqui (não interessa bem onde) tb era comunicação social e foi alterado para ciencias da comunicação há cerca de 10 anos, muito antes de Bolonha.
ResponderEliminarDe resto acho o que dizes muito pertinente e acertado. Daí estar neste momento a fazer um estágio profissional e a tirar mestrado (antiga licenciatura).
Relembro-te que a experiência profissional é muito valoriza, e para ser jornalista nos dias de hoje basta o 12º ano.
Caro Jolly,
ResponderEliminarO nome é, efectivamente, o que menos me importa. Importa, e muito, é que toda a estrutura do curso se tenha alterado de modo tão profundo que eu, que andei no curso quase o dobro do tempo dos estudantes de agora, esteja mais longe de terminar o curso do que eles, quando na verdade o que me faltava era, apenas e só, uma cadeira anual e duas semestrais...
Bem sei que a experiência profissional é o que mais conta (e sempre pensei assim, até porque no jornal onde trabalhei durante mais tempo o meu chefe nunca tinha posto os pés numa universidade e a maioria dos meus colegas tinha lá andado três anos. Como disse, eu andei lá cinco. Tenho mais curso do que a maioria dos jornalistas que conheço, apesar de não ter o diploma na mão (porque nunca senti falta dele, a bem da verdade, e porque comecei a trabalhar assim que saí da universidade para o estágio no JN).
Não sabia que também tinhas andado em Braga... Mas por que é que não te atiras ao mestrado de bolonha?
ResponderEliminarPede equivalências... É burocrático, eu sei! Dá chatices, eu sei! Perdes tempo e muita paciência, eu sei! Mas se realmente queres o dito canudo é o melhor que tens a fazer! Tenho uma colega que trabalha na mesma area que tu e que tinha a licenciatura de 4 anos, agora inscreveu-se directamente no segundo ano de mestrado de bolonha. Perdeu algum tempo com papelada mas conseguiu
ResponderEliminar:)
Olá, Ana! De facto, assim é. Andei nessa magnífica academia que é a Universidade do Minho, no curso que então se chamava Licenciatura em Comunicação Social. Entrei em 1994 e saí em 1999, directamente para o mercado de trabalho, razão pela qual nunca dei continuidade à vontade de terminar o curso. E não é esse o meu grande objectivo de momento, embora gostasse, por uma questão de brio de alguém que não gosta de deixar nada a meio, de concluir a minha formação superior. Parecia estar perto, mas com o Processo de Bolonha voltou a estar mais longe. E sabes que, com o desemprego, não será fácil pagar propinas, ainda por cima para ver reconhecida uma competência igual à dos que lá andam três anos, quando eu já lá "perdi" cinco. Era esse o teor do meu desabafo. Não é uma prioridade acabar um curso que estou em crer, cada vez mais, de pouco ou nada me valerá no futuro. Obrigada a ti, e ao Jolly, pelos vossos comentários e visitas. Voltem sempre! :)
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