domingo, 30 de janeiro de 2011

Mário Mesquita expõe «Terras de Sol e de Dor»

Tive ontem o grato prazer de reencontrar o meu querido amigo Mário Mesquita (de quem já vos falei aqui e aqui) no Centro Português de Fotografia, onde ontem à tarde ele inaugurou a sua mais recente exposição, «Por Terras de Sol e de Dor». Acedendo ao seu convite, que muito me honrou, encontrei-o com o mesmo ar despenteado e o mesmo sorriso quase envergonhado que lhe conhecia de outros tempos, e deixei-me perder, uma vez mais, pelo maravilhoso conjunto de fotos que, segundo me disse, reuniu ao longo de cerca de ano e meio, em viagens sucessivas ao longo das margens do Douro, do Porto até Freixo-de-Espada-à-Cinta.

Esta exposição, que estará patente no Centro Português de Fotografia até 22 de Maio, é o resultado de uma longa reportagem fotográfica que levou o Mário a deliciosos recantos do Vale do Douro, percorrendo as mais pequeninas localidades de concelhos como Porto, Vila Nova de Gaia, Gondomar, Valongo, Paredes, Penafiel, Marco de Canaveses, Baião, Vila da Feira, Castelo de Paiva, Cinfães, Resende, Mesão Frio, Santa Marta de Penaguião, Peso de Régua, Sabrosa, Alijó, Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo, Freixo-de-Espada-à-Cinta, Lamego, Armamar, São João da Pesqueira, Meda, Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo. Insere-se, como refere o catálogo, “no âmbito de um projecto de recolha visual de uma área de Portugal muito martirizada nos últimos anos pela fúria galopante da litorização, que lhe foi tirando gente e desestruturando as suas comunidades”, e constitui “um registo documental sobre o Vale do Douro, região construída por quem lá habitou e pelos poucos que lá ficaram”.

No seu discurso de inauguração da exposição, Mário Mesquita informou-nos de que não há neste trabalho qualquer preocupação de embelezamento do objecto retratado. Esta é a realidade que ali se vive, filtrada apenas pela interpretação de um homem, munido da sua câmara fotográfica e de um olhar atento a todas as pequenas coisas – a mostra vive muito de pormenores que passariam ao lado de muitos dos visitantes destes lugares, mas que nas fotografias do Mário ganham vida própria e nos captam os sentidos. Este é, por isso, “um trabalho de matriz realista, através do qual se dá nota do que ainda hoje pode ler-se da expressão tectónica, territorial e social do sistema de lugares ao longo deste território, unido por traços de identidade comuns muito fortes, mas diverso pelas suas múltiplas texturas. Realizado a partir do estudo da invenção da imagem das aldeias que o compõem, traça-nos o retrato de um processo declarado de abandono e perda cultural gritante que urge inverter”.

Pela parte que me toca, resta-me dizer apenas que adorei a exposição, que me identifiquei com muitas das imagens, apesar de nunca ter estado na esmagadora maioria dos lugares retratados. Em diversas fotografias, alinhadas em mais de 200 painéis que povoam quatro salas do piso térreo do histórico e lindíssimo edifício do CPF, senti uma afinidade tal com o olhar do Mário que comentei com a Lídia e o Carlos, dois amigos que me acompanharam no evento, que se lá tivesse estado, com a minha máquina fotográfica na mão, teria, muito provavelmente, guardado para a posteridade aqueles mesmos lugares, aqueles mesmos enquadramentos. Certamente não com a mesma qualidade, com o mesmo respeito pela técnica que para mim é ainda desconhecida, mas com a mesma paixão pela descoberta de lugares tão preciosos em recantos tão escondidos.
Ao Mário, resta-me agradecer o convite, a partilha e o sorriso e das memórias partilhadas na curta conversa que tivemos. E o desejo de que continue a surpreender-nos com o seu magnífico trabalho. Porque quero estar também nas próximas exposições! Até lá!

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