Tive ontem o grato prazer de reencontrar o meu querido amigo Mário
Mesquita (de quem já vos falei aqui e aqui) no Centro Português de Fotografia, onde ontem à tarde ele inaugurou a
sua mais recente exposição, «Por Terras de Sol e de Dor». Acedendo ao seu
convite, que muito me honrou, encontrei-o com o mesmo ar despenteado e o mesmo
sorriso quase envergonhado que lhe conhecia de outros tempos, e deixei-me
perder, uma vez mais, pelo maravilhoso conjunto de fotos que, segundo me disse,
reuniu ao longo de cerca de ano e meio, em viagens sucessivas ao longo das
margens do Douro, do Porto até Freixo-de-Espada-à-Cinta.
Esta exposição, que estará patente no Centro Português de Fotografia
até 22 de Maio, é o resultado de uma longa reportagem fotográfica que levou o
Mário a deliciosos recantos do Vale do Douro, percorrendo as mais pequeninas localidades
de concelhos como Porto, Vila Nova de Gaia, Gondomar, Valongo, Paredes,
Penafiel, Marco de Canaveses, Baião, Vila da Feira, Castelo de Paiva, Cinfães,
Resende, Mesão Frio, Santa Marta de Penaguião, Peso de Régua, Sabrosa, Alijó,
Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo, Freixo-de-Espada-à-Cinta, Lamego,
Armamar, São João da Pesqueira, Meda, Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo
Rodrigo. Insere-se, como refere o catálogo, “no âmbito de um projecto de
recolha visual de uma área de Portugal muito martirizada nos últimos anos pela
fúria galopante da litorização, que lhe foi tirando gente e desestruturando as
suas comunidades”, e constitui “um registo documental sobre o Vale do Douro,
região construída por quem lá habitou e pelos poucos que lá ficaram”.
No seu discurso de inauguração da exposição, Mário Mesquita
informou-nos de que não há neste trabalho qualquer preocupação de embelezamento
do objecto retratado. Esta é a realidade que ali se vive, filtrada apenas pela
interpretação de um homem, munido da sua câmara fotográfica e de um olhar
atento a todas as pequenas coisas – a mostra vive muito de pormenores que
passariam ao lado de muitos dos visitantes destes lugares, mas que nas
fotografias do Mário ganham vida própria e nos captam os sentidos. Este é, por
isso, “um trabalho de matriz realista, através do qual se dá nota do que ainda
hoje pode ler-se da expressão tectónica, territorial e social do sistema de lugares
ao longo deste território, unido por traços de identidade comuns muito fortes, mas
diverso pelas suas múltiplas texturas. Realizado a partir do estudo da invenção
da imagem das aldeias que o compõem, traça-nos o retrato de um processo
declarado de abandono e perda cultural gritante que urge inverter”.
Pela parte que me toca, resta-me dizer apenas que adorei a exposição,
que me identifiquei com muitas das imagens, apesar de nunca ter estado na
esmagadora maioria dos lugares retratados. Em diversas fotografias, alinhadas
em mais de 200 painéis que povoam quatro salas do piso térreo do histórico e lindíssimo
edifício do CPF, senti uma afinidade tal com o olhar do Mário que comentei com a
Lídia e o Carlos, dois amigos que me acompanharam no evento, que se lá tivesse
estado, com a minha máquina fotográfica na mão, teria, muito provavelmente,
guardado para a posteridade aqueles mesmos lugares, aqueles mesmos
enquadramentos. Certamente não com a mesma qualidade, com o mesmo respeito pela
técnica que para mim é ainda desconhecida, mas com a mesma paixão pela
descoberta de lugares tão preciosos em recantos tão escondidos.
Ao Mário, resta-me agradecer o convite, a partilha e o sorriso e das
memórias partilhadas na curta conversa que tivemos. E o desejo de que continue
a surpreender-nos com o seu magnífico trabalho. Porque quero estar também nas
próximas exposições! Até lá!


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