Falta pouco mais de uma semana para a noite da consoada, e por todo o lado há Natal a saltar das montras das lojas, há gente a correr com sacos e pacotes, com fitas e laços, com listas de presentes que, apesar dos tempos difíceis, não ficarão por comprar. Todos os anos, por esta altura, costumo ser uma dessas pessoas. Por esta altura, o pinheirinho - que todos os anos costumava ser enfeitado no dia 1 de Dezembro, mas que desta vez apenas ocupou o seu lugar no passado dia 13 - tem habitualmente a seus pés alguns embrulhos e algumas caixas, de várias formas e tamanhos, coloridas e alinhadas com desvelo e carinho. Desta vez não é assim. Tardiamente colocado no seu posto, o pinheiro permanece apagado, sem presentes a acompanhá-lo nestes dias. Falta-me o espírito natalício. Falta o Nero a morder as fitas e a atirar ao chão as bolas. Falta o meu pai - o grande entusiasta desta quadra cá em casa - a abanar os presentes, a tentar adivinhar o que está dentro dos pacotes com o nome dele, a lançar as suas suspeitas e, muitas vezes, a acertar no conteúdo das prendas que lhe comprávamos. Falta-me o meu pai. E falta-me o Nero, que já fez falta no nosso Natal do ano passado. Falta-me a vontade de ver a mesa enfeitada, falta-me a inspiração para comprar presentes, falta-me a luz das ruas a dançar-me nos olhos e a música a tocar-me na alma. Falta-me o Natal, na verdade. E a pouco mais de uma semana da noite da consoada, há em mim a urgência de sentir a alegria que era usual nestes dias. Alegria que sei que não terei. Neste ano não há Natal.
domingo, 16 de dezembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Para ti, Pai!
Não sei dizer-te adeus. Ainda é cedo, demasiado cedo, para deixares vazio este lugar que é teu. Para partires, de repente, arrancado assim aos tantos abraços que ainda queria dar-te. Passaram sete meses, pai, e o bater do meu coração continua a bater-me, como uma pancada seca, um grito mudo que se afoga nas minhas entranhas e que me devora o peito, a alma, o pensamento. Um som inaudível que me enlouquece. Um vazio que me preenche. Um frio que me racha por dentro, que me cristaliza as lágrimas, que me sufoca e me impede de respirar. O teu lugar é aqui, ao meu lado, no aconchego desta casa que é nossa. E no entanto não estás aqui, senão em todas as coisas e em todos os lugares. Há sete meses que não estás aqui, ainda que a tua ausência seja a mais presente das minhas poucas certezas. Hoje quero abraçar-te, ainda mais do que quero todos os dias, e envolver-te nos meus braços como naquele hediondo início de tarde, e quero ver-te acordar finalmente. Sorrir como sorrias. Há sete meses que espero, pai. Espero por um sinal teu. Uma estrela mais brilhante no céu, uma música que irrompe num lugar inusitado, um calorzinho nas mãos quando toco algo que te pertenceu. Sinto às vezes uma brisa no rosto. Leve, como um beijo pousado em silêncio. Penso que és tu. Quero pensar que és tu. Falo-te, mas não respondes, pelo menos na mesma língua. E sonho. Sonho que te abraço enfim, e que estamos de novo juntos, desta vez para sempre. Amo-te, pai! E morro um pouco a cada dia que passa. Morro de saudades.
31 de Outubro de 2012, dia 227
domingo, 9 de setembro de 2012
Da "geração mais bem preparada de sempre"...
Irrita-me solenemente ouvir dizer que os jovens de hoje constituem "a geração mais bem preparada de sempre" (isto quando não dizem que esta é a geração "melhor preparada" de sempre, porque isso então faz-me querer pôr uma bomba em alguns cérebros). Afinal, os jovens de hoje estão preparados para quê? Olhem bem à vossa volta e analisem, por alguns minutos, os comportamentos, e sobretudo as conversas, dos jovens de hoje. Metade (para ser bondosa) não sabe dizer nada. Não é capaz de ter uma conversa com cabeça, tronco e membros, nem é capaz de dissertar, ainda que breve e superficialmente, sobre qualquer tema da vida social, cultural, política ou económica contemporânea.
Os jovens de hoje sabem fazer de tudo com um iPod, um iPad ou um iPhone. E todos querem ter uma ou várias coisas dessas. Sabem sacar filmes e músicas na internet, sabem ludibriar os pais para que estes lhes dêem tudo aquilo de que precisam e, mais ainda, de tudo o que apenas eles acham que precisam. Sabem beber até cair, sabem fazer figuras tristes nas ruas, quando bebem e muitas vezes sem beberem. Sabem onde e a quem comprar drogas, e mesmo que não tenham dinheiro para comer, arranjam-no sempre para a dose, para a "cuca", para o café e o tabaco, para a 15ª tatuagem ridícula, para o piercing e para as calças de marca, que muitos usam a cair pelo rabo!
Dir-me-ão que o meu discurso é o de uma avozinha, e que nem todos os jovens são iguais. De acordo. Não tenho a pretensão de os conhecer todos. Seja! Mas queremos mesmo falar de percentagens no que toca às competências dos jovens de hoje? E já agora, os que não são assim - os que se portam bem, que estudam e progridem sem incidentes de maior na sua vida académica, estão preparados para quê? Por mais estudioso e trabalhador que um jovem de hoje seja, saberá fritar um ovo sem perguntar à mãe quais são os ingredientes para essa "receita"? Saberá preencher sem ajuda os impressos do IRS? Saberá mudar um pneu no caso de viajar sozinho e ter um furo? Ou fará aquilo que em tempos um amigo me disse que fazem todas as mulheres, que, diante de um pneu furado, "apenas podem chamar um homem"?!
Afinal, para que estão assim tão bem preparados os jovens de hoje? Estarão preparados para as angústias de que também se faz a vida moderna? Estarão preparados para o desemprego, para administrar uma casa, para criar uma família, para responder, sem frustrações e depressões, a todos os desafios que lhes são impostos pelo simples facto de estarem vivos? Estarão preparados para decidir o futuro desta geração e das que se lhe seguirão? Estarão preparados para assumir as consequências dos seus actos e das suas escolhas? Por que é que acho que não? Por que é que acho que as pessoas resumem o "grau de preparação" de uma geração ao número crescente de anos que essa geração andou na escola, muitas vezes apenas a passear os livros, sem qualquer resultado prático desses passeios?
E os que abandonam a escola porque não obtêm resultados, ou porque as famílias precisam do contributo deles, diminuto que seja, para porem comida na mesa? E os que, mesmo estudando e atingindo até elevados níveis de ensino, são incapazes de entender uma anedota simples sem a devida explicação de quem a conta? E os que chegam aos 40 anos a depender totalmente dos pais, e às vezes de avós e tios, que nunca na vida trabalharam ou tiveram maior responsabilidade do que a de sair da cama a tempo de que outra pessoa lhes arrume o quarto? Sim, há jovens assim. Sim, são muitos. Fazem parte desta geração, fazem. Preparados? Disso é que tenho muitas - mesmo muitas - dúvidas...
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Foi bom enquanto durou! Ou então não...
Quatro dias bastaram para que fosse a uma entrevista e passasse da condição de desempregada de longa duração à de empregada, e novamente ao mesmo estatuto. Lamentavelmente, não sou uma super-mulher, e não aguentei o duríssimo teste de resistência física e mental que é trabalhar numa loja (que na verdade são duas) de sandes, saladas e sopas. Antes de mais, a devida homenagem a todas as mulheres que fazem disso o seu quotidiano, porque é de facto um desafio hercúleo. Permanecer horas e horas de pé, sempre na mesma posição e a realizar vezes sem fim os mesmos exactos movimentos, não é coisa fácil. Estar horas e horas a lavar louça (que nunca pára de chegar porque há sempre gente a sujar), jornadas intermináveis de exercícios como desfiar frango, triturar maçãs e delícias do mar, fazer pastas de atum, frango e delícias, aprender a funcionar com fornos e fritadeiras industriais, limpar fornos e fritadeiras industriais, desmontar máquinas de sumos e limpar todos os componentes e parafusos, acondicionar frigoríficos e câmaras, limpar frigoríficos e câmaras, limpar tudo, sujar tudo e voltar a limpar tudo, varrer, passar o chão a pano, decorar os lugares de todos os objectos e as dezenas de procedimentos diferentes que compõem o quotidiano de um restaurante onde tudo é feito todos os dias, e depois ainda servir sandes, sopas, saladas, bebidas e sobremesas com um sorriso no rosto é, para o comum dos mortais (como eu), uma prova de fogo. Que não superei.
Aprendi imenso nestes quatro dias, acreditem. Sobre o funcionamento de centros comerciais e restaurantes, mas acima de tudo sobre as pessoas e sobre mim. Foi bom sentir-me útil novamente, porque o desemprego consome-nos, principalmente se sempre fomos pessoas de trabalhar, de nos mexermos, de estarmos sempre a fazer qualquer coisa. Mas não estive à altura deste desafio, e lamento-o profundamente, porque sei que há pessoas que contavam comigo, e porque sei que o salário ao fim do mês, ainda que diminuto, daria jeito. Mas não fui capaz de continuar. Quem, como eu, sofreu uma tromboembolia pulmonar há quatro anos, e que quase morreu por causa disso, sabe os malefícios que podem advir de estar horas e horas de pé, sempre na mesma posição, com as pernas a inchar e as dores a subir e a instalar-se em todo o corpo. Não há maneira de definir estes dias que passaram senão como o inferno na terra. Não, nem tudo foi mau. Claro que não. Conheci algumas pessoas interessantes, dinâmicas e muito competentes, que além de tudo o que me ensinaram, e de curtas histórias e lições de vida que generosamente partilharam comigo em duas ou três conversas mais ou menos fugazes, me mostraram que em todas as coisas há sabedoria, profissionalismo, qualidade. Gostei de conhecer a Bina e a Regina, principalmente estas duas, porque são pessoas dignas de serem exemplos para a maioria dos portugueses, pelo seu carácter e capacidade de entrega a um projecto, e por valorizarem o esforço que fiz e a pessoa que sou. Obrigada às duas por isso.
Aos que desiludi pelo falhanço na minha resistência física e psíquica, peço desculpa. Ao meu pai, de quem sempre julguei ter herdado a força e a coragem para aguentar os momentos menos bons; à minha mãe, por continuar a ser incapaz de a ajudar no seu esforço diário para suportar as despesas de uma casa; às minhas irmãs, por não ser capaz de lhes dar um exemplo de coragem, de força e de dinâmica na superação das minhas muitas limitações; ao Luís, por tê-lo desiludido naquilo que pretendia ser um investimento no meu e no nosso futuro; a todos os que, de uma forma ou de outra, acreditaram que eu seria capaz e me desejaram sucesso e felicidades. Foi bom enquanto durou! Ou então não...
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Diana de Gales morreu há 15 anos...
Há precisamente 15 anos, no dia 31 de Agosto de 1997 (tinha então 21 anos), estava acampada no Parque de Campismo Sereia da Gelfa, perto de Vila Praia de Âncora. Pouco depois de acordar, e quando me preparava para mais um dia de praia e descontraídos passeios por aquela zona, ouvi, no rádio de uma caravana vizinha, com o volume de som demasiado elevado, a notícia da trágica morte de Diana de Gales, a princesa cuja beleza e elegância tantas vezes tinha admirado em miúda. A notícia abalou-me. Não porque alguma vez a tivesse conhecido, mas porque Diana de Gales tinha, naquela altura, a idade que tenho hoje – 36 anos –, e quando temos 21 anos ninguém para nós morre aos 36. Ou aos 40. Ou aos 50…
Lembro-me de, por aqueles dias, ter assistido, vezes sem conta, às imagens do aparatoso acidente que a vitimou, quando o carro em que seguia embateu, a grande velocidade, num dos pilares de uma ponte em Paris. Lembro-me dos rostos de William e Harry, e de ter pensado que os príncipes, por uma questão de protocolo bacoco, não deveriam chorar. Pensei que seria impossível a um filho não chorar a morte da mãe, nomeadamente se ocorrida em tão violentas circunstâncias. Lembro-me das imagens do funeral, dos britânicos chorando nas ruas, das flores e das velas que aqui e ali se colocava junto a imagens da princesa. Quase senti que a conhecia, que era visita lá de casa. Lady Di, conhecida e prestigiada mundialmente pelo seu envolvimento em causas solidárias em todo o mundo, deixou em todo o mundo um sentimento de profunda tristeza quando partiu. A 31 de Agosto de 1997. Há precisamente 15 anos, quando tinha a minha idade…
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Não há espaço para gordinhas no meu léxico!
Há coisas que me irritam profundamente nas pessoas (tantas, tantas coisas). Uma das mais importantes, das que me irritam mais, é aquela mania que as pessoas têm de julgar as outras apenas pela sua imagem, pelo aspecto exterior (bom ou mau), pelo que se apreende no imediato e sem qualquer esforço. Como se um livro mostrasse o que vale apenas pela capa (que até pode ser entregue a um designer manhoso, que nada tenha a ver com o promissor autor da obra, mas pronto...), e fosse indiferente, depois de apreciada essa capa, cada uma das palavras grafadas nas páginas que compõem a obra propriamente dita. Outra coisa que me irrita muito nas pessoas é a tendência para os eufemismos: se um amigo apresenta a outro uma mulher feia, ele diz que ela é "simpática" (que é o que se diz de quem não inspira nada melhor a dizer); se uma amiga corta o cabelo e fica a parecer uma esfregona, a outra diz-lhe que "não está mal, mas eu não era capaz de cortar assim"; se uma mulher é gorda, logo há quem se apresse a dizer que as "gordinhas" são mais felizes, porque comem tudo o que querem e não se reprimem pela ditadura da moda.
Alguns pontos prévios:
- Uma gorda é uma gorda. Não é gordinha, nem rechonchudinha, nem redondinha, nem cheinha (que é uma coisa que nem sei escrever). Acho execrável esta coisa dos "inhos", que me faz sempre pensar que é de uns coitadinhos que estamos a falar, quando há mulheres gordas lindíssimas e que, como mostra a imagem acima, até são mais interessantes para algumas pessoas;
- Não vejo por que carga de água é que alguém tem de explicar aos outros que gosta disto ou daquilo e, pior ainda, por que é que tem de perguntar se há um problema nisso. Cada um gosta do que gosta, e quem não gostar da pinga que faça o favor de mudar de tasco!
- É falso que alguém prefira as gordas, e percebe-se facilmente porquê: as gordas são exactamente iguais às magras, só que maiores. Como acontece nas magras, há nas gordas mulheres muito e pouco interessantes, há mulheres bonitas e feias, há mulheres com e sem carácter, há mulheres que cativam e mulheres que repelem. Mais do que uma imagem, a sensualidade é uma atitude, e há quem tenha e quem não tenha, seja de que tamanho for, a atitude que seduz e que conquista.
- Mas, mesmo que fosse possível a alguém afirmar que prefere as gordas, como se as preferisse a todas, sobre todas as magras, apenas porque são gordas, o simples facto de perguntar "qual é o problema?" dá-me urticária. Por que é que o facto de gostar de gordas tem de ser um problema, alguém me explica?!
Posto isto, convém esclarecer que, como pessoa gorda que sou, detesto que me chamem "gordinha", e que, como me disse um dia um amigo, me digam que é gira a forma como brinco com os meus defeitos. Tive de lhe explicar que ser gordo é apenas ser gordo. Aos gordos não falta nenhum braço, não falta nenhuma perna, não falta um olho ou um nariz, e não falta - pelo menos em maior proporção do que nos magros - um cérebro e uma capacidade de o usar. Da mesma forma, nem todas as pessoas que são gordas são gordas por comerem desalmadamente. Algumas têm problemas físicos, outras têm distúrbios mentais e alimentares, outras são apenas preguiçosas e despreocupadas, e outras há (pasmem os mais cépticos) que são felizes como são. Exactamente assim, com quilos a mais e com regueifas e estrias.
Da mesma forma que nem todos os magros são bonitos (há cabides com olhos que, a meu ver, são tão interessantes como uma minhoca num pacote de arroz), também nem todos os gordos são feios. Parem, por isso, de ter pena deles, e de os tratar como se fossem aberrações. Os gordos são pessoas. Os "gordinhos" só existem na cabeça das pessoas que têm medo de usar as palavras.Uma mesinha é uma mesa pequena, um cãozinho é um cão pequeno, uma camisolinha é uma camisola pequena, um carrinho é um carro pequeno. E uma gordinha, o que é? É uma gorda pequena? Não, pois não? É que gordas pequenas é coisa que nem existe, sendo "gorda" uma palavra que nos empurra logo para algo grande.
Dêem os nomes aos bois, meu povo! Deixem as gordas serem gordas, inteiras e grandes, e parem de usar eufemismos patetas! Até porque mais simpático para as gordas seria que parassem de lhes lembrar a toda a hora que são gordas, porque as gordas têm espelhos em casa e sabem disso. Chamar-lhes gordinhas não as diminui por magia, nem diminuiu o facto, incontornável, de serem o que são. Gordas.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
O luto é agora o lugar a que pertencemos...
Ainda ontem dei por mim a pensar na fragilidade da vida. Nessa mania que o ser humano tem de pensar que é forte, que domina tudo à sua volta, e que depois se desmente, no fio do tempo, em escassos segundos, quando chega a morte. Os últimos meses têm sido, para mim e para os meus, particularmente castigadores. Em menos de meio ano perdemos o meu pai, a minha tia preferida e três animais de estimação. Assim, quase de repente, e por motivos quase sempre surpreendentes, roubaram-nos cinco vidas, duas delas humanas, e roubaram-nos também a nossa, pelo sequestro da nossa alegria de viver. Ontem, sem uma razão além de todas as razões que o legitimam, dei por mim a pensar nisto. Em todas as perdas que sofri, e em como são enormes! Em como a vida é frágil, apesar de todos os dias querermos convencer-nos de que somos eternos, e apesar de todos os dias agirmos como se isso fosse verdade.
Ontem pensei muito nas pessoas que perdi, nestes últimos meses e em todo o tempo que ficou para trás. E foram muitas, e muito queridas. Pensei que eu mesma já passei por uma experiência de que julguei não ser possível voltar a este mundo. E pensei que não haveria razão para estar a pensar em tudo isto, assim de repente, mais do que tenho pensado. Mas ao fim do dia, de repente também, chegou a razão que parecia não existir. Talvez tenha sido o meu sexto sentido, que dizem ser muito apurado nas mulheres. Faltava pouco para a meia-noite quando recebi a notícia de que tinha falecido a Joaninha. A Joaninha era uma antiga colega de trabalho, que conheci numa empresa onde fiz muitos e bons amigos. Não era da minha secção e até trabalhava noutro andar, pelo que não era das pessoas que me eram mais próximas. Ainda assim, gostei dela. Era jovem, alegre, uma benfiquista ferrenha, amiga dos seus amigos e sempre muito divertida. Ontem partiu. Para sempre.
Tinha 32 anos. Nos últimos anos vivia longe, em Sintra. Deixa uma filha menor e, disseram-me ontem também, um noivo. Deixa uma família em desespero, e eu sei bem o que isso é. Deixa muitos amigos, deixa de certeza muitos projectos por realizar e muita vida por viver. Não é justo morrer aos 32 anos. Não é justo, dir-me-ão todos os que perdem alguém, que se morra em qualquer idade, quando se tem ainda tanto para viver e fazer. É verdade. Não há justiça nos critérios da morte, que de repente nos leva aqueles de quem gostamos, sem hipótese de recuo, sem esperança de um regresso. Não há justiça alguma na forma como a morte nos atira para um precipício sem fim, nos suga a alegria de viver e a sepulta ao lado dos que amamos. E se ontem dei por mim a pensar em tudo isto, e se ontem mais uma vez vi partir alguém de forma cruel, isso só reforça a enorme fragilidade da nossa vida.
Sei que a Joaninha viverá para sempre no coração daqueles que a amam, como o meu pai, a minha tia, todos os que perdi ao longo da vida viverão para sempre em mim, no meu coração e nas minhas memórias. Mas dói, e dói muito, a injustiça implacável da morte! Dói a despedida, a percepção inequívoca da nossa impotência, da nossa frustração. Dói a nossa pequenez. Há um buraco que se abre no peito, uma existência que perde sentido. O luto é agora a nossa casa, o lugar a que pertencemos. Que descansem em paz todos aqueles que amamos e que a morte reclamou nos seus braços. Nunca os esqueceremos. Estarão sempre presentes, na infinita dor da sua ausência. Deixo aqui sentidas condolências à família da Joana, à minha família, a todas as famílias enlutadas. Não lhes digo que têm de seguir em frente, porque nem eu encontrei ainda o meu caminho. Desejo-lhes paz, que é aquilo de que sinto mais falta.
terça-feira, 26 de junho de 2012
Parabéns para mim!
O dia ainda mal nasceu e foram já muitas as pessoas que tiraram um bocadinho do seu tempo para me darem os parabéns e desejarem um dia feliz. Fizeram-no pessoalmente, por mensagens SMS ou de e-mail, pelo Facebook, de viva voz ao telefone... A todos o meu agradecimento e o meu sorriso mais sincero. Que tenham em dobro tudo aquilo que me desejarem!
Obrigada ao meu pai e à minha mãe, que num dia de inspiração me deram livre trânsito para esta vida, e que em todos os dias que se seguiram a esse transpiraram para me ajudarem a ser quem sou. Fruto do seu trabalho, da sua dedicação, do amor presente que sempre me deram, dos ensinamentos que comigo partilharam, do tanto que sempre me ensinaram, resultou este eu singular e único, indagador e por vezes resmungão, insatisfeito crónico, lutador e resistente. A eles devo tudo, a eles agradeço cada momento. Tem sido uma grande viagem!
Às minhas irmãs agradeço a luz que trouxeram à minha vida, uma de cada vez, e a concretização de um desejo que me acompanhava desde sempre. Com elas partilho o meu quotidiano, as minhas dores e o meu sofrimento, as alegrias e as tristezas, as vitórias e as derrotas, as conquistas e os sonhos mais audaciosos. Com elas aprendi a cuidar, a proteger, a partilhar, a sentir que há bocadinhos de nós que vivem e se prolongam nos outros! Com elas aprendi que um sorriso pode iluminar e uma lágrima pode destruir, mas que um abraço pode ajudar a suportar ou a resolver o mal que por vezes vem e nos belisca os sentidos!
Obrigada ao Luís, a metade da minha alma que durante muitos anos andou distante dos meus olhos, mas que eu sonhei sempre e sempre soube que existia. Há quase sete anos encheu de vida a minha existência, polvilhou de sorrisos e boas surpresas o meu ser, e me deu o que de mais precioso pode dar-se a alguém: o coração. Pela sua enorme generosidade, pelo olhar feliz e sereno que transporta sempre, pelas angústias que calou em mim, pela dor que partilhou, pelas palavras e pelos silêncios, pela mão estendida e pelas infindáveis horas de paciência que tem tido para comigo, obrigada! Tem sido uma viagem de sonho, fantástica e alucinada, como nós! :)
Aos meus amigos, reais e virtuais, os maiores e os mais pequeninos, os que me fazem sorrir apenas por existirem, os que estão comigo mesmo quando não estão comigo, que hoje e sempre se lembram de mim, mesmo que já raramente falemos ou que estejamos juntos menos vezes, obrigada! Aos que sabem que o dia de hoje será um dia difícil para mim, por me faltar o beijo e o sorriso do meu pai, a força de carácter e a genialidade dele, as suas gargalhadas e a sua jovialidade, muito obrigada por estarem aí, hoje e todos os dias!
Aos meus inimigos, se os tiver (e devo ter dois ou três...), obrigada também! Por me ensinarem a relativizar, a saber que não sou indiferente, que suscito ódios e invejas da mesma forma como suscito amores e saudades, que vos marquei sendo quem sou, que estou, mesmo que pairando como sombra, presente nas vossas vidas! Obrigada por não fazerem falta! :)
Para o meu novo ano de vida não trago sonhos ou projectos de grande monta. Costumo gostar de números e de anos ímpares, mas o 35 não deixa saudades. Aos 35 anos vi partir o meu pai (o meu ídolo e a minha génese), a minha tia preferida, os meus amigos Nero, Luna e Cheesy (animais, dirão alguns, mas amigos e pedacinhos do meu coração que se converteram em estrelinhas no meu céu). Aos 35 anos percebi que se pode morrer em vida, sofrendo além do suportável, porque amando além do dizível...
Que o 36 traga melhores ventos, pois piores será difícil. Que aos 36 encontre finalmente a luz que tem faltado no meu caminho, e que aqueles que têm feito parte de mim, dos meus dias e dos meus afectos, continuem ao meu lado, com a coragem e a bondade de gostarem de mim! Obrigada a todos, por tudo e pelos pequenos nadas, por serem quem são e fazerem de mim aquilo que sou também. Vocês vivem no meu coração!
Parabéns para mim!
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Gostava de ser uma pessoa simples...
Gostava de ser uma pessoa simples. Uma daquelas pessoas raras que, quando falam, são imediatamente entendidas pelas outras. Mesmo que falem mal, que se expressem com a sensibilidade de um tractor, com a elegância de um elefante numa loja de louças, com uma simplicidade que só a ignorância permite. Essas pessoas não sofrem com os mal-entendidos que afectam gente como eu. Não se sentem sozinhas, vazias e inúteis quando têm de esgrimir argumentos com outras pessoas, durante horas, para que depois as outras percebam aquilo que se disse e, não raras vezes, percebam que afinal estiveram sempre de acordo com a ideia expressa.
Gostava de ser uma dessas pessoas simples. Dessas que, mesmo falando mal e escrevendo ainda pior, se sentem sempre acompanhadas nos momentos mais duros das duas vidas. Pessoas que não precisam de terminar as frases, nem de explicar as anedotas, que falam com os olhos e que se deixam ler pelos olhos das outras. Gostava de ser uma dessas pessoas que, diante de um problema, um contratempo ou um imprevisto, vêm reconhecido o seu direito à exaltação, à voz mais elevada, aos dizeres menos politicamente correctos. Gostava de ser uma dessas pessoas que conseguem manter a calma diante dos disparates dos outros, da sua estreiteza de vistas, da sua incomensurável tendência para confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira. Gostava de poder conversar com pessoas que não confundissem a minha defesa de uma posição com a condenação imediata de todas as outras. Gostava de falar com quem pudesse ser capaz de me entender, à primeira, sem necessidade de explicações, debates, longas trocas de palavras que quase sempre desaguam no vazio e no "deixa lá, que isso passa".
Detesto mal-entendidos. Irrita-me que as pessoas não sejam capazes de se entender. Sim, sou uma pessoa que se exaspera com aqueles que erguem barreiras em vez de muros, que não conseguem expor uma ideia sem fazer uma tempestade à volta do assunto, e que depois acusam os outros de terem falado mal, quando na verdade foram eles que não entenderam patavina do que se disse. Abomino a ideia de que pessoas com quem perdi o meu tempo a conversar sobre alguma coisa cheguem depois à conclusão de que eu disse uma coisa completamente diferente da coisa que eu efectivamente disse. Chateia-me, pronto! Isso faz de mim uma pessoa má? Não creio. Não apenas por isso, bem entendido. Fará de mim uma pessoa que se exalta com facilidade, como hoje me disseram? Talvez. Mas quem tem alma não tem calma, e eu tenho uma alma exigente e indomada. Gosto dela assim. Quem não gostar da pinga que mude de tasco!
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Na mouche...
HÁ ALGUNS INCOMPETENTES, MAS POUCOS INOCENTES
Como caixa de ressonância daqueles que de quem é porta-voz (tendo há muito deixado de ter voz própria), o presidente da Comissão Europeia, o português Durão Barroso, veio alinhar-se com os conselhos da troika sobre Portugal: não há outro caminho que não o de seguir a “solução” da austeridade e acelerar as “reformas estruturais” — descer os custos salariais, liberalizar mais ainda os despedimentos e diminuir o alcance do subsídio de desemprego.
Que o trio formado pelo careca, o etíope e o alemão ignorem que em Portugal se está a oferecer 650 euros de ordenado a um engenheiro electrotécnico falando três línguas estrangeiras ou 580 euros a um dentista em horário completo, é mais ou menos compreensível para quem os portugueses são uma abstracção matemática. Mas que um português, colocado nos altos círculos europeus e instalado nos seus hábitos, também ache que um dos nossos problemas principais são os ordenados elevados, já não é admissível. Lembremo-nos disto quando ele por aí vier candidatar-se a Presidente da República.
Durão Barroso é uma espécie de cata-vento da impotência e incompetência dos dirigentes europeus. Todas as semanas ele cheira o vento e vira-se para o lado de onde ele sopra: se os srs. Monti, Draghi, Van Rompuy se mostram vagamente preocupados com o crescimento e o emprego, lá, no alto do edifício europeu, o cata-vento aponta a direcção; se, porém, na semana seguinte, os mesmos senhores mais a srª Merkel repetem que não há vida sem austeridade, recessão e desemprego, o cata-vento vira 180 graus e passa a indicar a direcção oposta.
Quando um dia se fizer a triste história destes anos de suicídio europeu, haveremos de perguntar como é que a Europa foi governada e destruída por um clube fechado de irresponsáveis, sem uma direcção, uma ideia, um projecto lógico. Como é que se começou por brincar ao directório castigador para com a Grécia para acabar a fazer implodir tudo em volta. Como é que se conseguiu levar a Lei de Murphy até ao absoluto, fazendo com que tudo o que podia correr mal tivesse corrido mal: o contágio do subprime americano na banca europeia, que era afirmadamente inviável e que estoirou com a Islândia e a Irlanda e colocou a Inglaterra de joelhos; a falência final da Grécia, submetida a um castigo tão exemplar e tão inteligente que só lhe restou a alternativa de negociar com as máfias russas e as Three Gorges chinesas; como é que a tão longamente prevista explosão da bolha imobiliária espanhola acabou por rebentar na cara dos que juravam que a Espanha aguentaria isso e muito mais; como é que as agências de notação, os mercados e a Goldman Sachs puderam livremente atacar a dívida soberana de todos os Estados europeus, excepto a Alemanha, numa estratégia concertada de cerco ao euro, que finalmente tornou toda a Europa insolvente.
Ou como é que um pequeno país, como Portugal, experimentou uma receita jamais vista — a de tentar salvar as finanças públicas através da ruína da economia — e que, oh, espanto, produziu o resultado mais provável: arruinou uma coisa e outra. E como é que, no final de tudo isto, as periferias implodiram e só o centro — isto é, a Alemanha e seus satélites — se viu coberto de mercadorias que os seus parceiros europeus não tinham como comprar e atulhado em triliões de euros depositados pelos pobres e desesperados e que lhes puderam servir para comprar tudo, desde as ilhas gregas à água que os portugueses bebiam.
Deixemos os grandes senhores da Europa entregues à sua irrecuperável estupidez e detenhamo-nos sobre o nosso pequeno e infeliz exemplo, que nos serve para perceber que nada aconteceu por acaso, mas sim porque umas vezes a incompetência foi demasiada e outras a inocência foi de menos. O que podemos nós pensar quando o ex-ministro Teixeira dos Santos ainda consegue jurar que havia um risco sistémico de contágio se não se nacionalizasse aquele covil de bandidos do BPN? Será que todo o restante sistema bancário também assentava na fraude, na evasão fiscal, nos negócios inconfessáveis para amigos, nos bancos-fantasmas em Cabo Verde para esconder dinheiro e toda a restante série de traficâncias que de há muito — de há muito! — se sabia existirem no BPN? E como, com que fundamento, com que ciência, pode continuar a sustentar que a alternativa de encerrar, pura e simplesmente, aquele vão de escada “faria recuar a economia 4%”? Ou que era previsível que a conta da nacionalização para os contribuintes não fosse além dos 700 milhões de euros?
O que poderemos nós pensar quando descobrimos que à despesa declarada e à dívida ocultada pelo dr. Jardim ainda há a somar as facturas escondidas debaixo do tapete, emitidas pelos empreiteiros amigos da “autonomia” e a quem ele prometia conseguir pagar, assim que os ventos de Lisboa lhe soprassem mais favoravelmente?
O que poderemos nós pensar quando, depois de tantos anos a exigir o fim das SCUT, descobrimos que, afinal, o fim das auto-estradas sem portagens ainda iria conseguir sair mais caro ao Estado? Como poderíamos adivinhar que havia uns contratos secretos, escondidos do Tribunal de Contas, em que o Estado garantia aos concessionários das PPP que ganhariam sempre X sem portagens e X+Y com portagens?
Mas como poderíamos adivinhá-lo se nos dizem sempre que o Estado tem de recorrer aos serviços de escritórios privados de advocacia (sempre os mesmos), porque, entre os milhares de juristas dos quadros públicos, não há uma meia dúzia que consiga redigir um contrato em que o Estado não seja sempre comido por parvo?
A troika quer reformas estruturais? Ora, imponha ao Governo que faça uma lei retroactiva — sim, retroactiva — que declare a nulidade e renegociação de todos os contratos celebrados pelo Estado com privados em que seja manifesto e reconhecido pelo Tribunal de Contas que só o Estado assumiu riscos, encaixou prejuízos sem correspondência com o negócio e fez figura de anjinho. A Constituição não deixa? Ok, estabeleça-se um imposto extraordinário de 99,9% sobre os lucros excessivos dos contratos de PPP ou outros celebrados com o Estado. Eu conheço vários.
Quer outra reforma, não sei se estrutural ou conjuntural, mas, pelo menos, moral? Obrigue os bancos a aplicarem todo o dinheiro que vão buscar ao BCE a 1% de juros no financiamento da economia e das empresas viáveis e não em autocapitalização, para taparem os buracos dos negócios de favor e de influência que andaram a financiar aos grupos amigos.
Mais uma? Escrevam uma lei que estabeleça que todas as empresas de construção civil, que estão paradas por falta de obras e a despedir às dezenas de milhares, se possam dedicar à recuperação e remodelação do património urbano, público ou privado, pagando 0% de IRC nessas obras. Bruxelas não deixa? Deixa a Holanda ter um IRC que atrai para lá a sede das nossas empresas do PSI-20, mas não nos deixa baixar parte dos impostos às nossas empresas, numa situação de emergência? OK, Bruxelas que mande então fechar as empresas e despedir os trabalhadores. Cumpra-se a lei!
Outra? Proíbam as privatizações feitas segundo o modelo em moda, que consiste em privatizar a parte das empresas que dá lucro e deixar as “imparidades” a cargo do Estado: quem quiser comprar leva tudo ou não leva nada. E, já agora, que a operação financeira seja obrigatoriamente conduzida pela Caixa Geral de Depósitos (não é para isso que temos um banco público, por enquanto?). O quê, a Caixa não tem vocação ou aptidão para isso? Não me digam! Então, os administradores são pagos como privados, fazem negócios com os grandes grupos privados, até compram acções dos bancos privados e não são capazes de fazer o que os privados fazem?
E, quanto à engenharia jurídica, atenta a reiterada falta de vocação e de aptidão dos serviços contratados em outsourcing para defenderem os interesses do cliente Estado, a troika que nos mande uma equipa de juristas para ensinar como se faz. Tenho muitas mais ideias, algumas tão ingénuas como estas, mas nenhumas tão prejudiciais como aquelas com que nos têm governado. A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz. Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever...
Miguel Sousa Tavares
«Expresso», 2 de Junho de 2012
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O dia da criança é também um pouco meu...
“Nunca
ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de criança”.
Victor
Hugo
Há
qualquer coisa de mágico nas crianças. No seu olhar, cândido e sereno, mesmo
quando se envolvem nas maiores tropelias; no seu sorriso, que desconhece as
mágoas que a idade adulta lhe trará; na simplicidade com que nos dizem como
devemos resolver os nossos problemas e combater as nossas tristezas. Há dias,
numa superfície comercial onde me encontrava a fazer compras com uma das minhas
irmãs, surgiu de repente uma menina, dos seus cinco ou seis anos, que começou a
fazer conversa comigo. A Catarina, como disse chamar-se, tinha na mão uma bola
e preparava-se para ir à piscina no dia seguinte. É quase sempre assim quando
me cruzo com crianças. Talvez pressintam que gosto delas, mesmo sem as
conhecer, e se abeirem de mim para trocar meia dúzia de palavras por causa
disso. Sinto, muitas vezes, que a maior parte dos adultos não tem a minha
paciência para dialogar com os mais pequenos. Eu tenho, e esse é um dos meus
maiores orgulhos, porque, como dizia Mêncio, “o grande homem é um adulto que
não perdeu o coração de criança”.
As
crianças são únicas. Todas as crianças. São pequeninos pedacinhos de céu
colocados na terra para que percebamos que a vida é bem menos complicada do que
parece. Há algumas semanas, o filho de uma amiga minha, de apenas três anos,
tentava confortar-me pela recente partida do meu pai. Dizia-me ele, do alto da
sua sabedoria, que a tristeza sairia rapidamente do meu coração se eu fosse
comprar um brinquedo, e que mesmo que fosse um carrinho teria de ser cor-de-rosa
porque eu sou uma menina. Parece simples, não parece? Tudo é simples para as
crianças, que riem com as asneiras dos adultos, que deliram com a atenção que
alguns adultos lhes dão, que esquecem os erros que outros adultos cometem com
eles, que têm uma facilidade imensa de perdoar quem os magoa, como se nada
tivesse acontecido. As crianças são mágicas, asseguro-vos. Taine justificou o
facto de não ter filhos com a alegação de que gostava demasiado deles para
poder dar-lhes vida. É uma afirmação que compreendo deveras. Não é fácil, no
cenário actual em que mergulhámos este mundo, resolver ter filhos. É uma tarefa
árdua, por vezes inglória...
Tal
como referiu um dia Pasteur, “quando vejo uma criança ela inspira-me
imediatamente dois sentimentos: ternura, pelo que é, e respeito pelo que pode
vir a ser”. É exactamente o que sinto por todas as crianças que comigo se
cruzam e que, não raras vezes, se dão comigo à confiança que não dão a outros
adultos. Acho que me vêem como uma delas. Uma criança grande, que brinca e que
ri, que os compreende, que os aceita como são, que não tenta moldá-los e fazer
deles adultos em ponto pequeno! E é por isso que, para mim, o dia de hoje tem
algo de especial. O Dia Mundial da Criança é também um pouco meu. Porque gosto
de bonecas e carrinhos, porque gosto de me sentar no chão e construir castelos
de legos, porque gosto de conversar com os mais pequenos e de conhecê-los e
saber o que pensam, estimulá-los a pensar mais e melhor, ensinar-lhes o que sei
e aprender com eles algumas competências que me faltam. Sigo o conselho de Josh
Billings: “Guie uma criança pelo caminho que ela deve seguir, e guie-se por ela
de vez em quando”…
sábado, 26 de maio de 2012
O luto é o mais profundo dos mares...
"A dor de uma perda é tão impossivelmente dolorosa, tão semelhante ao pânico, que têm que ser inventadas maneiras para se defender contra a investida emocional do sofrimento. Existe um medo de que se uma pessoa alguma vez se entregar totalmente à dor, ela será devastada - como que por um maremoto enorme - para nunca mais emergir para estados emocionais comuns outra vez".
Catherine M. Sanders
Estou de luto. Há 68 dias partiu deste mundo o meu pai, e há 69 dias que não o vejo, que não falo com ele, que não me cruzo com ele nos corredores cá de casa ou junto à máquina do café, onde era comum vê-lo logo pela manhã. Sei, e soube-o desde criança, que as pessoas estão vivas e que num dado momento deixarão de estar. Sei que a morte faz parte da vida, como tantas vezes ouço dizer. Já perdi outras pessoas antes, e também animais por quem tinha grande estima. Mas desta vez foi diferente. A morte súbita do meu pai, inesperada, implacável e gelada como uma espada de aço que me trespassou a carne naquele hediondo início de tarde, roubou-me todas as forças e sequestrou-me as emoções e os sentidos, desorganizou-me por dentro, atirou-me para um imenso mar de dor e sofrimento, e empurrou-me até ao fundo, até àquele lugar onde é tão difícil respirar, e onde ficaram reduzidas a cinzas todas as hipóteses que tinha de um dia ser completamente feliz. Roubaram-me o meu pai, e com isso arrancaram-me do peito um amor que gostaria de carregar para sempre nos braços.
O meu pai partiu a 19 de Março deste ano. Era Dia do Pai. Não é que fosse comum celebrarmos de forma especial essa data cá em casa. Afinal, para nós todos os dias eram dias do pai. Ele estava sempre aqui, ao nosso lado, partilhando connosco todos os momentos, bons e maus, das nossas vidas. Todos os dias eram dia do pai, e este, pintado de negro à hora do almoço, transformou-se no mais importante dos dias do pai da minha vida. Um dia que nunca esquecerei, que persegue as minhas memórias onde quer que me encontre. O luto é o mais profundo dos mares. Creio que não há palavras (eu pelo menos desconheço-as) que definam a salada emocional que me enche o peito de vazio. Dizer que sofro é pouco. Dizer que choro, que tenho saudades, que não sei como vencer a tristeza que a falta do sorriso dele me provoca, é incompleto. Dizer que vivo, quando apenas me limito a existir na sombra do sofrimento que me esmaga, é insuficiente. Sobreviver à morte de um pai é, pelo menos no meu caso, a dor maior e mais lancinante que já experimentei. Não sei dizer isto melhor.
O meu pai era – é, será sempre – o meu melhor amigo. A ele devo tudo o que sei, tudo o que sou, tudo o que poderei vir a ser, pois foi ele que me potenciou todas as oportunidades que aproveitei na vida, e algumas das que não aproveitei devidamente também. Ao meu pai devo tudo. Porque o meu pai era, e é, e será sempre, o melhor pai do mundo. Desde que nasci foi um pai presente, um pai amigo, que viveu para mim, para as minhas irmãs e para a minha família, que se dobrou e se desdobrou por nós, que se encolheu e esticou por nós, que celebrou muitas vitórias connosco e que fez também muitos sacrifícios por nós. Sei que a vivência do luto é íntima e solitária, pois sei o quão só me sinto agora que ele partiu, e o quanto procuro, mesmo assim, estar sozinha, fechada no meu mundo, nas minhas memórias e nos cantinhos de afecto que são só nossos. Transporto o meu pai comigo, para onde quer que vá, porque ele faz parte de mim. Carrego-o no meu corpo e no meu sangue, na cabeça e no coração, sempre.
Dir-me-ão, como amiúde tenho ouvido, que tenho de ser forte. Que tenho de vencer esta dor, que este buraco que sinto no peito vai diminuindo com o tempo. Dir-me-ão que tenho de me rodear de gente, se quero sentir-me melhor. Mas quem disse que é isso que quero? Quem disse que sinto falta de me sentir bem? Quem disse que, escassos 68 dias depois de o meu pai ter partido, deveria estar já menos triste. E se eu nunca deixar de estar triste? E se essa for, como me parece agora, a minha nova maneira de ser, o meu novo ego? Despreocupem-se os meus amigos: eu não estou deprimida, ou ansiosa, ou com vontade de me atirar de uma ponte e morrer lá em baixo. Estou, apenas, terrivelmente só. E, estranhamente ou não, não sinto necessidade de mudar isso. Falta uma parte de mim. Como um braço, uma perna, duas ou três veias. Falta-me o recheio do coração, que enterrei naquela tarde em que sepultei o meu pai…
sábado, 17 de dezembro de 2011
Carta ao Pai Natal
Querido Pai Natal,
Na certeza de que, nas gélidas planícies do Pólo Norte, mas certamente aconchegadinho junto à lareira, me ouves e sabes que tenho sido uma boa menina, superando com inegável mestria as muitas e duras provas a que tenho sido submetida, venho por este meio entregar-te a minha lista de sugestões para presentes, tendo a certeza de que saberás basear a tua escolha na mais profunda sabedoria. Na noite de Natal terás, como é hábito, leite quentinho e bolachinhas junto ao pinheirinho! Obrigada e beijinhos,
Carla
3. O amor saboroso e bem saboreado...
4. A mais bonita das flores...
6. Emprego.
7. Dinheiro.
8. Razões para sorrir...
9. Nunzio back on track...
10. Um sonho sobre rodas...
11. Um companheiro de trabalho competente, giro e com estilo...
12. Coisas que cheiram bem...
13. Coisas giras para o dia...
14. Coisas giras para a noite...
15. Flores!
Pai Natal, não penses que sou garganeira e quero tudo de uma vez! Não tenhas pressa em dar-me tudo isto neste Natal. Tenho a vida toda pela frente! :)
domingo, 4 de dezembro de 2011
Francisco Sá Carneiro morreu há 31 anos
Dizem-me que foi um grande
homem e que teria sido também um político de elevada estatura. Se é certo que
não posso confirmá-lo por experiência própria, já que tinha apenas quatro anos
no dia da sua morte, ocorrida na trágica circunstância da queda de um avião em
Camarate, e que durante grande parte da minha infância, vá-se lá saber porquê, atribuí
sempre o seu nome ao rosto de Pinto Balsemão, outro fundador do PSD, a verdade
é que só a invulgar grandeza de um homem, aliada talvez à falta de uma
explicação cabal para os acontecimentos de 4 de Dezembro de 1980 – a tese de
atentado parece-me a mais plausível, mas não há certeza de que não tenha sido
apenas um acidente devido a negligência na manutenção do Cessna que o levaria
de Lisboa ao Porto para o comício final da campanha presidencial de António Soares
Carneiro –, poderá justificar que hoje, volvidos exactamente 31 anos sobre o
dia da sua morte, Francisco Sá Carneiro continue a ser alvo de uma imensa
admiração por parte dos que conviveram com ele e com ele fundaram o PSD.
Roubado à vida com apenas 46
anos, era na altura primeiro-ministro de Portugal, num governo de coligação
PSD/CDS, e seguia a bordo daquele Cessna na companhia do democrata-cristão
Adelino Amaro da Costa, ministro da Defesa, de Snu Abecassis, sua companheira,
dois assessores, o piloto e o co-piloto da aeronave, todos falecidos na
sequência do seu despenhamento. Foi Diogo Freitas do Amaral quem, aos microfones
da RTP, anunciou ao país a morte daquelas sete pessoas. Serão muitas, por estes
dias, e como tem sido tradição ao longo dos anos, as homenagens a Sá Carneiro e
aos ideais que preconizou para o seu partido e para o país. Respondendo a um
convite do PSD de Anadia, por exemplo, esteve ontem numa conferência realizada naquele
concelho do Centro do País António Capucho, destacada figura da
social-democracia portuguesa. Tendo em conta que a presença de Sá Carneiro no
avião que haveria de vitimar toda a sua equipa não estava inicialmente prevista,
e considerando que um atentado de tais dimensões não se prepara em escassos
minutos ou horas, o orador mostrou-se convicto de que, “se houve um atentado em
Camarate, não foi contra Sá Carneiro”.
Independentemente de ter sido
ou não um atentado, a verdade é que sete vidas foram ceifadas de forma trágica
e prematura no dia 4 de Dezembro de 1980 em Camarate, e é lamentável que, 31
anos depois desse dia, as razões da queda do avião continuem por esclarecer.
Francisco Sá Carneiro – que, descobri hoje, até tem uma página no Facebook –
continuará a ser lembrado com saudade pelos seus familiares, amigos e correligionários,
e o enorme mistério da sua morte permanecerá na cabeça de todas as pessoas de
bem deste país. Por isso aqui fica a minha singela homenagem a um homem que não
tive oportunidade de conhecer verdadeiramente, mas que muitos acreditam que,
ainda hoje, fará falta a Portugal.
A foto que ilustra este post
foi obtida à margem do congresso do PSD realizado em Pombal em Abril de 2005 e
é da autoria da fotojornalista Ângela Velhote, à data editora de Fotografia de
«O Primeiro de Janeiro».
sábado, 15 de outubro de 2011
Portuenses aderiram em massa ao protesto global contra a crise
A democracia saiu à
rua e os portuenses literalmente invadiram a sua cidade. No âmbito da
manifestação global contra a crise, em que participaram milhões de pessoas, em
vários países, a Invicta cobriu-se de um manto colorido de bandeiras e
cartazes, e foram muitos os que quiseram dar conta da sua indignação perante o
actual cenário social e económico em Portugal. Largos milhares de pessoas
concentraram-se, pelas 15 horas, na Praça da Batalha, de onde rumaram depois
para a Avenida dos Aliados.
Em ambos os locais
houve palavras de ordem gritadas contra o Governo, contra a banca e contra a
troika, e apesar de José Sócrates e o anterior executivo não terem escapado às
críticas, a verdade é que foram os nomes de Passos Coelho, Cavaco Silva e Vítor
Gaspar os alvos preferenciais das vaias dos “indignados”. E se o actual governo
teve estado de graça, há que reconhecer que foi curto, porque nas ruas há já
quem diga que não faltará muito para haver derramamento de sangue, e para que o
actual primeiro-ministro comece a ter razões para temer pela sua segurança.
Passavam poucos
minutos das 15 horas quando foram abertas as hostilidades na Batalha. O microfone
estava aberto e acessível a quem quisesse dizer publicamente o que lhe ia na
alma, e foram muitos os que subiram a escadaria da Igreja de Santo Ildefonso para
usar da palavra. Havia cartazes escritos em inglês e em castelhano, e um casal
alemão, à conversa com o Mente Despenteada 3, reconheceu a elevada ingerência
da Alemanha na política de todos os países da União Europeia, considerando que
os portugueses se vêem actualmente confrontados com desafios muito complicados,
com a perda do poder de compra a crescer avassaladoramente, sem que o Estado
esteja a ser capaz de dar garantias de que a austeridade terá bons resultados.
O protesto seguiu
depois pela Rua de Passos Manuel, a caminho da principal praça da cidade, onde foi
distribuído aos manifestantes e jornalistas presentes um comunicado do grupo
Indignados do Porto, onde podia ler-se que, tal como na Islândia, na Grécia ou
em Espanha, “também nós, em Portugal, queremos dar voz à indignação e dizer não”.
Recusando o que dizem ser “o ideal economicista da sociedade, capaz de gerar e
perpetuar profundas desigualdades e injustiças brutais”, afirmam pugnar por uma
sociedade mais justa e equitativa, que abra caminho a um mundo novo, diferente,
mais justo e mais solidário, responsabilidade que recai, segundo o documento,
sobre todos nós.
“Este governo foi
eleito com mentiras”
O Mente Despenteada
3 fez o percurso entre a Praça da Batalha e a Avenida dos Aliados à conversa
com José Soeiro. O dirigente bloquista, sociólogo e ex-deputado à Assembleia da
República, foi comentando aquilo que via, envolto num mar de gente descontente
e indignada mas com disposição para agir e lutar, sem nunca baixar os braços...
Como vês a adesão a esta manifestação aqui no
Porto?
Do ponto em que
estou não me é ainda possível ter a dimensão exacta da manifestação, mas é
muita gente! São muitos milhares de pessoas. Não sei quantificar, mas é muita
gente. Acho que uma das razões para que haja tanta gente é o facto de terem
passado apenas dois dias sobre o anúncio deste corte brutal de dois meses de
vencimento para grande parte dos funcionários públicos, de uma nova subida do
IVA… É mais austeridade, e acho que as pessoas estão fartas. O facto de estarem
hoje aqui é o sinal desse sentimento, porque assim é impossível sobreviver… Retirar
o rendimento às pessoas significa que elas deixarão de ter capacidade para
responder às suas necessidades, e isso significa que haverá mais desemprego, o
que vai gerar mais recessão… É um ciclo infernal, do qual não se sai! E o que é
mais absurdo nisto tudo é que nós olhamos para a Grécia, vemos o que se está a
passar por lá, o que estas medidas estão a provocar, e aqui continua-se a fazer
o mesmo, com o argumento de que temos de obedecer ao FMI, com a Banca a marcar
presença no Conselho de Ministros onde estas decisões são tomadas e a assegurar
a manutenção das suas margens, e com a maioria da população a ser brutalmente
atacada…
Como é que a manifestação de hoje pode ajudar
a travar esse ciclo infernal de que falas?
O grande desafio é a
luta social, as pessoas fazerem-se ouvir. A rua é o espaço em que nasceu a
democracia, e é na rua que ela tem de voltar a fazer-se ouvir…
Mas não há ainda a ideia de que sair à rua e
protestar não resolve grande coisa?
Pois, essa é, quanto
a mim, a dimensão que falta trabalhar. As pessoas mobilizam-se mais facilmente
se sentirem que há uma alternativa palpável, e essa alternativa passa pelo
esforço de construção de um programa político, de sabermos como é que saímos
disto, com que políticas. Várias hipóteses têm sido aventadas, desde a taxação
das mais-valias, a renegociação da dívida, o fim dos off-shores… No fundo, é
preciso pôr o sistema financeiro a contribuir para a resolução desta crise, e
compreender que um país não se gere como se gere uma casa. Porque numa casa não
há off-shores, nem há especulação financeira (o filho não especula com o
dinheiro da mãe), enfim… O país não é uma casa! Para podermos, a médio prazo,
sair desta situação, é preciso levar a cabo uma política expansionista, e não
recessiva. É preciso criar emprego, é preciso investir, e é preciso que o
Estado invista. Não é pela via dos cortes sistemáticos, porque quanto mais se
corta menos a economia resiste. Perde-se poder de compra e até o Estado recolhe
menos impostos, porque as pessoas têm menor rendimento, compram menos…
Mas
isso é extremamente claro. Não deveria sê-lo também para o Governo, que ainda
por cima é liderado por uma pessoa formada em Economia?!
É extremamente claro,
sim. O que acontece, muito simplesmente, é que isto colide com os interesses do
capitalismo financeiro e de quem beneficia dele, e que é quem comanda esta
crise. Neste momento, a riqueza está a ser transferida directamente de quem
trabalha para pagar aos bancos, à dívida. É uma transferência directa de
rendimento dos trabalhadores para o sector financeiro, e portanto, neste
momento, quem manda é o sector financeiro. Manda no PSD, manda nas instituições
internacionais que tutelam o país…
Então, e como é que se resgata o país às
garras do sistema financeiro?
Só com democracia. Saindo
à rua e exigindo, por exemplo, uma auditoria de cidadãos à dívida, como está a
fazer-se na Grécia. Ou seja, nós queremos saber quem é que está a ficar com o
dinheiro. Esse é um primeiro princípio de transparência na informação, para a
poder daí se poder construir alternativas. As pessoas têm de sair à rua, dizer que
isto é insustentável. As pessoas têm de dizer: “Parámos. Acabou, já chega”. Porque
acho que só nessa altura é que conseguiremos fazer com que o poder político
acorde. O problema, acho, não é elegermos outras pessoas. O problema é mesmo
aquele conjunto de entidades que nós não elegemos. É que quem tem poder hoje –
o Banco Central Europeu, a troika, de que o BCE faz parte, ou mesmo a Comissão Europeia
– não é eleito.
Era o que se lia há pouco em alguns cartazes:
ninguém votou em Angela Merkel…
Precisamente. E por
isso temos de avançar para formas de democracia à escala europeia, para que
possamos exigir que esta gente responda perante o povo. No actual modelo não há
ninguém que responda ao povo! Os governos nacionais dizem que “isto é muito
mau, mas temos de fazer porque eles obrigaram”, e “eles”, os que obrigam, são
sempre pessoas que não têm de prestar contas a ninguém. Desse ponto de vista, o
capitalismo está a acabar com a democracia. Acho que é evidente que aqueles que
foram eleitos não estão a agir nos interesses do povo que os elegeu, e sim de
uma minoria, mas o nosso alvo não é a democracia. É a falta de democracia. O problema
não está na nossa capacidade para eleger pessoas, mas sim no facto de o poder
estar concentrado nas mãos de pessoas que nós não temos capacidade de eleger e
de controlar.
Pessoas que não respondem perante o
eleitorado…
Exacto. Pessoas não
respondem perante o povo, e como tal estão-se a marimbar. Vêem as manifestações
e pensam: “Porreiro! Não tenho de responder perante eles”. Acho que esse é o
grande problema na actualidade. A democracia à escala europeia é uma das
dimensões mais importantes da resposta aos actuais problemas, penso.
E internamente, apenas quatro meses depois de
termos ido a eleições legislativas e termos mandatado um novo governo esta
manifestação não está de certo modo ferida de alguma falta de legitimidade? Como
é que podemos reclamar legitimamente de um governo que acabámos de empossar nas
urnas, com uma percentagem expressiva de votos?
Poderia pensar-se
assim, mas creio que mesmo quem votou no PSD votou ouvindo Passos Coelho dizer
que cortar no subsídio de férias e de Natal era um disparate; votou ouvindo-o
dizer que a austeridade não pode recair sempre sobre os mesmos; votou ouvindo-o
dizer que é preciso crescimento económico; votou ouvindo-o dizer que é preciso
criar emprego! É óbvio que quem tivesse um pouquinho mais de atenção e lesse o
programa político do PSD – onde não estão claramente explanadas todas estas
medidas, este arraso (porque se estivesse, evidentemente eles não ganhavam as
eleições), mas está o essencial da sua ideologia liberal – perceberia que esta
seria a linha de actuação deste governo. Por isso, de certa forma, acho que
quem tem a legitimidade ferida é o próprio governo, porque foi eleito dizendo
que não ia fazer precisamente o que está a fazer…
Com mentiras?
Com mentiras. Esse é
um dos dramas da política, porque só temos duas alternativas: ou se rompe o pacto
com a troika, ou não há hipótese de haver democracia e de o país sobreviver. O pacto
com a troika vai destruir o país.
E romper o pacto com a troika não vai também
destruir o país e deixá-lo isolado, à margem da Europa?
Por isso, para
romper o pacto com a troika teria de haver uma acção concertada de Portugal com
a Grécia, com a Irlanda, eventualmente com Espanha, porque, por exemplo, não
sou nada favorável à saída de Portugal do euro. Poderiam dizer-nos que essa
solução representaria um empobrecimento. Pois é. Por isso devemos evitá-la, mas
aquilo a que hoje assistimos é também um empobrecimento brutal: as pessoas perderam
20 por cento do seu rendimento, só nos salários, e depois ainda houve os
aumentos nos impostos. Daqui a dois anos vamos olhar para trás e perceber que
perdemos metade do rendimento. Isso é insustentável! Num país em que já existe
uma franja de 20 por cento de pessoas a viver na pobreza, a continuar a cortar
assim nas políticas sociais o que vejo daqui a uns anos é um país
desertificado, transformado numa espécie de uma aldeia interior da Europa onde
não vive ninguém, com uma crescente taxa de emigração entre as pessoas que têm
alguma qualificação e que procuram emprego noutros sítios… É uma destruição do
nosso futuro.
E como comentas, por exemplo, a antipatia que
se sentia para com o anterior governo, e em particular para com José Sócrates,
quando o actual governo está em funções há apenas quatro meses e já parece
haver tanta revolta e tanta gente a querer pô-lo fora do poder?
No contexto de
ditadura financeira em que vivemos (bem sei que temos a possibilidade de eleger
os nossos representantes e de irmos para a rua manifestarmos o descontentamento
que sentimos, e isso faz parte da democracia, mas acho que a economia não é
democrática e o cenário actual é o de uma ditadura financeira), os
primeiros-ministros que administram esta ditadura, e que não respondem pelo
interesse geral, da maioria, mas estão presos aos interesses e ao poder do
capital financeiro, vão “queimar-se” cada vez mais rapidamente, porque neste
contexto, se não quiserem romper com essa ditadura, não lhes resta outro papel
que não o de mensageiros das más notícias. Acho que o drama deste momento que
estamos a viver é precisamente esse: os primeiros-ministros e todas as pessoas
no poder que não quiserem romper com essa ditadura vão queimar-se como fósforos!
Porque já não existe sequer o papel da política, a dimensão da escolha. Não. Nós
fazemos o que eles nos mandam fazer! Hoje não respondemos pelo povo, mas
representamos os mercados, e isso vai-se naturalizando… Por exemplo: quando foi
anunciada esta reforma da Administração Local que está em curso, o que nos foi
dito pelo Governo foi que ela teria de ser feita porque a troika nos obriga a
poupar dinheiro. Deixou de haver uma discussão sobre o território, deixou de
haver política! E isto é assim em todas as áreas…
Impera o critério meramente economicista.
É o carácter
economicista destas políticas, mas que é economicista também porque há a ideia
de que se gastou demasiado nos últimos anos, mas atenção, porque há países
muito mais endividados do que Portugal! Historicamente, não é verdade que o
país não tenha atravessado outros momentos como este, com dívidas desta
dimensão. Como já disse, não se gere um país como se gere uma casa, e o
endividamento nesta altura pode servir para evitar a bancarrota no futuro. Sobretudo
estamos a ser alvo de um ataque especulativo. Grande parte do dinheiro que
temos de pagar não é dinheiro que nos emprestaram, mas sim juros. Portanto, não
estamos a pagar o que nos emprestaram. Estamos, de facto, a enriquecer um
conjunto de entidades que estão a engordar à nossa custa, e que são
insensíveis, precisamente porque não respondem perante nós! Estão-se a
marimbar. Se viermos para a rua, eles dizem-nos para protestarmos com o
governo. Hoje o poder maior não é o poder visível. É precisamente o poder invisível,
e é contra esse poder que devemos usar as nossas energias, para torná-lo
visível.
Diante de tudo isso, o actual contexto económico
e social não deveria ser favorável a uma viragem à esquerda e não, como vimos
por exemplo na Madeira, a um aumento da força da direita?
Seria. Seria, mas há
um problema. No contexto da história da esquerda portuguesa, e dos partidos que
fazem parte dessa história, enfrentamos uma situação complicada: é que a
esquerda sem o Partido Socialista não tem força para um governo alternativo,
mas neste momento um governo com o PS também não seria um governo alternativo,
porque o PS, mediante estas medidas, já veio dizer que não votará contra o
Orçamento de Estado. Que no essencial concorda com estas medidas. Não só os
socialistas assinaram o acordo com a troika, e vêm agora defendê-lo, como vêm
defender também o próprio Orçamento do PSD e do CDS. Objectivamente, o PS está
hoje do lado do problema, e não do lado da solução. E isso é dramático, porque
precisávamos que a esquerda tivesse força suficiente para apresentar uma
alternativa ao país. Ora, o que hoje acontece é que aqueles que têm uma
alternativa não têm força suficiente para a realizarem e para serem governo, e
o partido que teria essa força, e que poderia devolver à esquerda a capacidade
para liderar o destino do país, está a rolar noutro sentido. O problema é esse.
Enquanto os partidos à esquerda do PS não tiverem força para impor ao PS uma
alternativa e construir um novo bloco social e uma nova maioria, há um certo
desânimo. As pessoas vêm para a rua, mas não visualizam uma alternativa
concreta. Temos de juntar toda a massa crítica que no nosso país acha que o
capitalismo está a destruir-nos. Precisamos de outra forma de encarar o
trabalho, vendo os trabalhadores como um recurso, e não como um problema, e de
ver as leis do trabalho como uma protecção e um direito humano, e não como um
resquício do passado…
Precisamos de mudar de paradigma?
Sim, precisamos de
um novo modelo económico, e de deixarmos de nos ajoelhar perante o capital
financeiro. Vamos fazer uma auditoria à dívida e dizer que não pagamos uma
parte dos juros, porque são ilegítimos, e que há uma parte da dívida motivada
pela corrupção e que deve ser paga por quem a fez! Estamos a debater um
problema que é de ausência de dinheiro, mas vendemos o BPN – onde enterrámos
quatro mil milhões de euros – e fomos vendê-lo, por uma ninharia, a um tipo que
tinha para com o BPN uma dívida maior do que o dinheiro pelo qual comprou o
banco! Américo Amorim devia ao BPN mais dinheiro do que aquele que deu pela
compra do banco, e quem meteu dinheiro nesse banco fomos nós!
Esta é, de facto, uma situação quase
caricatural…
É caricatural, mas
infelizmente há situações parecidas com esta na Europa. Não com o escândalo do
BPN, porque nisso acho que tivemos uma certa originalidade, mas há de facto
situações parecidas noutros países. E isso coloca uma questão interessante
sobre este protesto, que é a possibilidade de aprofundar a dimensão europeia
das próprias lutas. Nós precisávamos de uma saída à escala europeia, e para
isso é preciso juntar as forças sociais à escala europeia. Para mim a solução é
essa. O desafio é mesmo mudar a Europa.
Texto e fotos: Carla Teixeira
Outras fotos serão divulgadas oportunamente no Facebook
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