quinta-feira, 13 de março de 2014

Dizem-me que sofro de um transtorno obsessivo compulsivo...


Talvez seja verdade. É verdade que gosto de arrumar as coisas à minha maneira, e que me irrito se alguém altera a ordem que estabeleci. É verdade que sou capaz de perder manhãs, tardes ou dias inteiros a arrumar uma divisão da casa ou mesmo um simples armário. É verdade que gosto de simetrias, de medir espaços para que fiquem simétricos, de arrumar coisas em caixas. Gosto de caixas. Compro muitas caixas, daquelas decoradas e bonitas, e meto tudo em caixas. Depois arrumo as caixas, por tamanhos e por cores, nos vários móveis ou em determinados recantos da casa. Arrumo os livros por tamanhos e cores, e os CD e DVD por ordem alfabética. Arrumo a roupa por tipos e por cores nas gavetas. As camisolas quentes vão para um lado, as mais frescas para outro, as de manga comprida ficam numa gaveta, as de manga curta vão, claro, para noutra, as cuecas e as meias são dispostas por cores, os tops e os soutiens em degradé...
Quando estendo a roupa também uso molas de tipos e de cores diferentes, consoante o estendal em que as utilizo e o fim para que as utilizo: no estendal interior, que tem cerdas mais grossas, uso molas maiores; no estendal exterior, porque tem corda mais fina e se cair alguma peça lá abaixo nunca mais a vemos, uso as molas mais pequeninas e mais fortes. As azuis são para a roupa do marido (quando não são suficientes uso também as verdes), as vermelhas são para a minha roupa (e se não chegarem uso depois as molas pretas), as amarelas para a roupa de casa. Estendo sempre as meias aos pares, e detesto encontrar meias solteiras, que nunca guardo nas gavetas enquanto não encontrar o par. Também organizo as coisas do marido. Peças de roupa que ele arruma "nos lugares errados", cadernos e livros que deixa espalhados na secretária ou no balcão da cozinha quando acaba de estudar, as bicicletas e os capacetes, as ferramentas e afins.
Quando saio à rua e levo carteira, toda a gente se ri da minha organização: tenho um arrumador de carteira, que permite ter sempre tudo muito arrumadinho lá dentro, e bolsas para tudo: para os óculos, para o rádio do carro (que ouço sempre no volume 19 ou 21), para o telemóvel, para os blocos de notas, porta-cartões, carteira para as notas, carteira para as moedas, bolsa para o auricular do telemóvel. Os bolsos da própria carteira têm utilizações pré-definidas: um para as chaves de casa, outro para as chaves do carro, um terceiro para o leitor de mp3, outro bolso para os elásticos e molas de cabelo, etc. e tal. E quando vamos às compras registo sempre as coisas por tipo e função (os detergentes todos juntos, os alimentos noutro grupo, cada coisa em seu saco, sem confusões nem misturas). E compro sempre sete maçãs. Nem seis, nem oito. Sete sempre. E sete tomates, sete cenouras, sete batatas... 
Gosto de constância, de tudo sempre na mesma. Não gosto de trocar as partes de trás dos brincos, mesmo que sejam exactamente iguais. Não gosto de trocar carregadores e cabos USB dos aparelhos (telemóveis, câmaras fotográficas, leitores de cartões), mesmo que sejam exactamente iguais. É a minha organização e dou-me bem com ela. É graças a este sistema organizativo que raramente esqueço de onde coloquei determinada coisa, e que mesmo de olhos fechados meto a mão na carteira e encontro em segundos aquilo de que preciso. Terei um transtorno obsessivo compulsivo? Talvez tenha. "É provável", pensam vocês. "É maluquinha", pensarão também. Sim, talvez seja. Mas sou assim e gosto. Gosto do meu esquema organizativo, gosto das minhas manias, gosto das minhas rotinas. Gosto de saber com o que conto e fico muitas vezes de pé-atrás com surpresas, mesmo que depois se revelem boas. Sou como sou. E quem não gostar da pinga... que mude de tasco! :)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Lembra-se dos últimos anos com o seu filho?



Não haverá em Portugal muita gente que nunca tenha ouvido falar no Rui Pedro. No desaparecimento de um menino, no sofrimento atroz dos seus pais, na angústia da procura, no desespero da falta de resultados dessa busca. O Rui Pedro faz hoje 27 anos. Desapareceu quando tinha 11 anos, e desde essa altura o rosto de Filomena, esta mãe-coragem, tornou-se-nos familiar. Tristemente familiar.

Não consegui ver estas imagens sem deixar rolar as lágrimas. Eu, que nem tenho filhos, revejo nos olhos desta mulher, no seu sofrimento, todas as minhas perdas, a soma dos meus desesperos. E compreendo tão bem o que ela sente! É verdade que todos sabemos o que é perder alguém. Faz parte da vida essa batalha dura e inglória com a morte. Mas perder alguém assim, porque simplesmente desapareceu, sem se saber onde está, como está, se vive, se já não está entre nós, se chora ou ri, se sabe que, mesmo na saudade de anos e anos, continua a ser amado como naquele último dia... é desumano. É imensamente cruel. 

Por isso partilho este vídeo. Porque não sou mãe mas podia ser. Porque na minha houve sofrimento e angústia, mas nunca este não saber onde está e porque não está ao meu lado a pessoa que mais amo, se vive ou se já não está entre nós. Porque há tantas crianças desaparecidas e tantas famílias desfeitas por isso. Porque estas imagens me fizeram chorar, mesmo sem nunca ter conhecido pessoalmente o Rui Pedro ou a sua mãe. Porque gostava que ele fosse encontrado. Porque gostava que todos os meninos e todas as meninas que desapareceram fossem encontrados. Porque queria que nenhuma criança tivesse de ser encontrada. Que nenhuma criança desaparecesse. 

Parabéns, Rui Pedro!
Força, Filomena e restante família! 
<3

domingo, 17 de novembro de 2013

As promessas do Grande Medium-Vidente Professor Lamine...


O Prof. Lamine deixou-me este recado na caixa do correio. Com medo de que o não visse, talvez, deixou outro preso nas escovas limpa-vidros do carro. Explica que "não há problemas sem solução", sejam de que tipo forem, e atesta que atende presencialmente ou à distância, em Português ou Francês. Fixe! Mas o melhor mesmo é dizer que resolve tudo "com rapidez total" (haverá rapidez parcial?), com "facilidade de pagamento". Vou ligar-lhe e propor que resolva rapidamente o meu problema de desemprego, e como promete facilitar o pagamento, pago quando ele me arranjar emprego. Se não arranjar, não pago. Boa ideia, né?

domingo, 20 de outubro de 2013

A Bocas viu Sócrates, cujo sucesso não lhe passa no gargalo...

A inveja é mesmo uma coisa tão feia! A Bocas esteve por baixo de José Sócrates num restaurante e não perdeu a oportunidade de mostrar que não consegue ultrapassar o facto de ele continuar a ser aplaudido, enquanto dela ninguém se lembra senão para apresentar - mal - concursos desviados do horário nobre da única estação de televisão que, qual asilo, lhe deu guarida. Vai daí, ligou-se ao Facebook e vomitou isto: 


Não tenho por hábito falar aqui da minha vida privada.Mas, desta vez, não resisto, até porque se cruza com a vida pública de todos nós. Ora, ontem , convidada para um jantar de anos de um amigo , vejam lá a surpresa quando sei que, no andar de cima do restaurante ,o anfitrião do outro jantar era Sócrates, personagem com quem nunca estive pessoalmente. Não vou dizer o nome do sítio que durante umas duas horas e tal partilhámos , só vou explicar que entre nós só havia uma longa escada, íngreme, mesmo à frente dos meus olhos , do primeiro ao ultimo degrau , que , alías, fazia um barulho estranho, algo embaraçador para quem descia , coisa que vários comensais tiveram de fazer, precisamente os convidados de Sócrates.Eram muitos, pelo barulho percebi logo isso. Ainda pensei que fosse para festejar a entrevista dada ontem ao Expresso onde falou para um Povo ingrato que não compreende a grandeza do homem que faz um mestrado em Ciências Políticas como um aluno comum do ensino pós-Bolonha. Não são todos os políticos que o fazem, nós sabemos ... e já depois de ser ministro, primeiro-ministro e em França!E qual Sorbonne!!! Merecia um jantar .Mas descobri não era bem por isto embora tivesse a ver.... por muito que eu estivesse desligada do andar de cima , ouviam-se palmas e , confesso, a minha curiosidade foi aumentando,ainda perguntei ao dono do restaurante se podia ser eu a levar os cafés...mas, não sei porquê , ele disse-me que não , nem deu para insistir. Eu bem via os empregados escada (longa)acima , escada abaixo,a levar e trazer pratos , copos e finalmente os cafés.Fui lá fora ter com amigos que estavam a fumar e tive a grata surpresa de poder ver através dos vidros que são grandes que os meus vizinhos de cima estavam a ver, projectada na parede ,uma entrevista do Herman José precisamente com José Sócrates. Pensei que estavam a recordar coisas antigas que era uma espécie de romagem de saudade.Mas não , era mesmo o programa do Herman de ontem que estavam todos a seguir numa espécie de homenagem ao Grande Líder.Foi logo a seguir que descobri quem eram os convidados, quando um a um , foram descendo as escadas ,os ministros dos seus governos. O primeiro a sair foi Mariano Gago , seguido de Rui Pereira ,cada um levava debaixo do braço um livrinho , o tal sobre a tortura que serviu de trabalho final do mestrado e que Sócrates decidiu publicar. Foi isso que serviu de pretexto ao repasto em que Sócrates se quis ver rodeado dos seus ministros. Estavam lá quase todos,quase, não vi Teixeira dos Santos, Ana Jorge, Alberto Martins , António Costa, I. Alçada Baptista,G. Canavilhas ,I.Pires de Lima, nem Luis Bernardo o seu assessor de muitos anos apesar de estarem lá outros. Luis Bernardo agora está com Seguro...De resto parecia que , de repente, tínhamos voltado atrás no tempo e eu estava a ver desfilar à minha frente os governos de Sócrates. E até Mário Lino , menos ágil nas escadas por momentos pareceu que ia aterrar na Ota , em grande estilo. Mas, meus amigos, se estão à espera de pormenores da saída do novo estudioso sobre a tortura , tirem o cavalinho da chuva. Eu também esperei um bocado , mas tenho a impressão de que por muito que esperasse , seria a mesma coisa. Ele só saiu depois de eu sair. Deve ser um cavalheiro...primeiro as senhoras! E assim , não foi desta que conheci José Sócrates, mas , pensando bem...

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Obrigada, bombeiros portugueses!

Foto: Nuno André Freire/Agência Lusa

Há no fogo uma grandeza que assusta. Que nos impele à fuga, ao instinto de sobrevivência. Que nos faz ter medo, querer salvar o que é nosso mas, sobretudo, querer salvar a nossa pele, e a pele dos que amamos. E há homens e mulheres, grandes, superiores a tudo isso, que abdicam da tranquilidade nos dias, e nas noites, para, naquele que será porventura o maior esforço solidário do mundo, assumirem, sob duras condições, a luta contra esse inimigo, poderoso e letal.

A luta é desigual, como nos mostram as notícias mais recentes e as de anos anteriores: pelas minhas contas, são já quatro os bombeiros apanhados pelas chamas nos incêndios dos últimos dias. Homens e mulheres que se entregaram a uma batalha que não era deles, para salvar bens e pessoas que não lhes eram nada, num acto heróico e acima do que é capaz o ser humano comum, muito mais apto a lutas absurdas por razões ainda mais obtusas.

Quatro pessoas perderam a vida nos incêndios dos últimos dias em Portugal. Há também feridos, mais ou menos graves, há desespero estampado nos rostos de milhares de pessoas, há perdas e danos elevados e, para as famílias destes bombeiros, perdas e danos irreparáveis. Há revolta também. E a minha vai sobretudo para os agentes causadores deste drama que ano após ano se renova no nosso país. Todos os anos, haja mais ou menos calor, mais ou menos chuva, mais ou menos justificação, há milhares de hectares de floresta que simplesmente desaparecem, arrastando na voragem das chamas os pertences de famílias inteiras e, bem mais grave do que isso, a vida e a razão de viver de muitas pessoas. 

Não tenho palavras para expressar a dor que sinto por essas vidas que se perdem, pois sei o que é perder alguém que se ama acima de tudo e de todas as coisas. Não quero entrar em polémicas sobre quem devia ter enviado as condolências às famílias e o não fez, porque as vidas que se perderam são muito mais importantes do que isso, e as pessoas que assim perderam a vida merecem muito mais respeito e atenção do que qualquer polémica colateral. Estas pessoas não tinham de morrer! Não era esta a hora delas. Estavam a ajudar outras pessoas, mereciam viver muito mais anos apenas por isso. E no entanto foram apanhadas por incêndios ateados tantas vezes por seres menores, sem escrúpulos, sem uma réstia de humanidade...

Aos bombeiros falecidos deixo o meu incomensurável respeito. Às famílias enlutadas sentidas condolências. Às corporações de bombeiros e a todas as pessoas que ao lado deles enfrentaram as chamas e tentaram minorar os danos, o meu agradecimento. Como cidadã, como ser humano, como pessoa atenta e que já esteve em cenários difíceis como os que estas pessoas enfrentaram, ainda que apenas como jornalista, sei o que sofrem, o quanto se entregam, a força que conseguem inventar nos braços e nas pernas para nunca desistirem. Não há palavras que tranquilizem agora as famílias e os amigos que os perderam para sempre. A não ser a convicção de que eram heróis e morreram como tal. Não é, nem de perto, uma consolação, mas há-de servir para que, um dia mais tarde, consigam sorrir ao pensar neles. E esse sorriso, sei-o bem, será a prova de que o amor vence todas as barreiras, mesmo a da morte, e de que quem ama ama mesmo para sempre...

Obrigada, bombeiros portugueses!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O jardim da minha alma já não vive onde vivia...

“Se protegeres com demasiada devoção o jardim secreto da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão”. Arthur Schnitzler, in «Relações e Solidão»


Quando era miúda, principalmente depois do nascimento da minha primeira irmã, quando a minha mãe ficou em casa a cuidar dela e deixou de poder acompanhar-me todas as manhãs no caminho para a escola e todas as tardes no regresso a casa, costumava percorrer sozinha um longo caminho a pé. Saía do colégio, depois das aulas e de ter feito os trabalhos de casa, e partia ao encontro do meu pai, num ponto previamente definido de onde depois seguíamos juntos para casa. Chegava quase sempre antes dele, e por isso, com a experiência de fazer aquele caminho, comecei a treinar o passo e a saber onde e por quanto tempo podia parar sem correr o risco de me atrasar para lhe cair nos braços e contar como tinha sido o meu dia.

Algures nesse caminho, quase a chegar ao cruzamento onde nos encontrávamos, havia uma casa com muros altos, amarelos, e um imenso jardim, com árvores e flores, que todos os dias espreitava da rua. O jardim escondia a fachada da casa, porque eram altas as árvores, mas parecia nunca estar ninguém. E eu ficava ali, largos minutos, a contemplar em silêncio aquele jardim imenso, e a casa de fachada escondida onde não parecia haver ninguém para apreciar a beleza singular daquele quadro. Um dia, não sei se com coragem ou desmedida ousadia – é quase a mesma coisa, não é? – fiz mais do que apenas contemplar o jardim. Abri o portão e entrei, como se a casa fosse minha, naquela casa amarela de muros altos. Andei por ali, deambulando entre as flores, abraçando as árvores, falando com borboletas e outros bichos que voavam à minha volta. Não apareceu ninguém para me repreender.

Voltei no dia seguinte, e de novo entrei sem que ninguém aparecesse para me proibir ou recriminar. No dia seguinte também, e no outro dia, e no outro, e no outro… Aquele passou a ser o meu ritual diário no regresso do colégio. Nunca contei a ninguém que entrava todos os dias naquele jardim, e que ficava ali a falar com as árvores, as flores, os pássaros e as borboletas. Não sei se alguma vez alguém me viu, ou se alguém sabia daquele meu encontro vespertino com a Natureza, e talvez comigo, com a minha própria alma. Ali, naqueles minutos em que passeava por entre o verde do jardim e o amarelo dos muros altos da casa, sentia-me bem. Estava sozinha, mas era como se estivesse rodeada de amigos. Falava com eles, rodopiava entre as árvores, abraçava-as, inventava diálogos em que era uma princesa e os meus amigos imaginários eram príncipes, cavaleiros, donzelas e criadas, pessoas e animais capazes de dançar comigo, de partilhar comigo os seus devaneios, as suas crenças, os seus medos e os seus maiores sonhos.

Talvez já naquele tempo fosse louca. Talvez houvesse já dentro de mim aquela loucura em que hoje me revejo com prazer e aceitação, como se não houvesse outro remédio senão aceitar-me exactamente como sou, gostando até de ser exactamente assim. Já não danço entre flores, nem abraço árvores, e às vezes sinto falta disso. Sinto que me perdi da criança que fui, que jurei que seria sempre, no dia em que deixei de passar naquela rua, no regresso da escola, e de invadir os muros altos da casa amarela. Aquele era o meu jardim secreto, o jardim secreto da minha alma. Ali encontrava todos os dias o meu sorriso, a minha vontade de rodopiar entre as árvores, na minha dança com as borboletas. Naquele jardim, que por minutos era meu e apenas meu, sentia-me ser. Deixava-me ser, sentir, voar de dentro de mim para o mundo inteiro à minha frente…

Entretanto cresci. E às vezes tenho saudades de ser assim. De ser criança. De ser aquela criança que invadia casas de muros altos, que se permitia construir o jardim da sua alma nos jardins das casas dos outros. Há dias voltei àquela rua. Por acaso, sem premeditar. Procurei a casa amarela de muros altos, e ela lá estava. Mas os muros, que ainda são altos, já não são amarelos. São cinzentos, tristes, apagados. E o jardim já não é jardim, mas antes um enorme pátio de cimento onde há carros estacionados. A casa já não é uma casa. É a sede de uma empresa, com reclamos luminosos e amplas janelas de vidro duplo. A fachada foi alterada, e da casa não sobra qualquer magia daquele tempo em que ali construí o jardim da minha alma e rodopiei entre árvores e flores, dançando com as borboletas e falando com príncipes e princesas, cavaleiros e criadas que viviam apenas na minha imaginação.

Percebi então que o jardim da minha alma já não vivia ali. Que não há agora um espaço físico para esta magia que há dentro de mim e que me faz acreditar em príncipes e princesas, no amor e na saudade, no estar só mas sem deixar de ser feliz nessa solidão. Sei que a minha alma ainda floresce, luxuriante e rebelde como sempre foi, mesmo que não haja um lugar no mundo onde pessoas normais possam ver o meu jardim crescer. Sei que há flores dentro de mim, que há árvores que me abraçam e borboletas que esvoaçam enquanto falam comigo. Sei que mais ninguém vê o jardim que cresce à minha volta. Talvez pensem que sou doida quando me vêem falar com as plantas e os animais. Quando me vêem rir sozinha, sem perceberem que afinal não estou só. Estou comigo, no jardim da minha alma. Estou num lugar onde consigo abraçar quem amo, mesmo que já tenha partido, e em que consigo sorrir e ver a luz do sorriso das pessoas mais importantes da minha vida. Este é o jardim da minha alma. E era, até hoje, secreto. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Porta-a-porta: das vendas ao espancamento de portas fechadas...


Antigamente, sempre que alguém tocava à campainha cá de casa, tínhamos o hábito de abrir a porta, ou de pelo menos ir ver quem era e ao que vinha. Com o tempo, porém, constatámos que na maior parte das vezes quem toca anda a pregar a fé, a vender qualquer coisa ou a pedir, para si ou para as festas anuais da freguesia. Depois de anos e anos a sofrer na pele o “privilégio” de ser alvo preferencial das acções de telemarketing de tudo o que era empresa do ramo, agora, talvez porque deixámos de ter telefone fixo, já ninguém nos telefona. Agora é no porta-a-porta que se materializa o calvário! É raro o dia em que, aqui na rua, não andam pessoas engravatadas e com pastas debaixo do braço, sorrisos mais amarelos do que a gema do ovo e exacerbados ataques de simpatia que soam a tudo menos a genuína alegria por verem quem está por detrás das portas que se vão abrindo. A nossa raramente se abre. E se vemos que é disso que se trata, vendedores e outros pregadores, mesmo que nos vejam entrar em casa, quando tocam agimos como se não estivesse ninguém. E tocam uma vez, às vezes duas, e depois desistem.

Hoje o surreal aconteceu. Vimos do terraço que andava um dos tais engravatados a bater a todas as portas e a tentar impingir a quem as abria qualquer coisa entre telefones e televisão por cabo. Ele não nos viu, e por isso viemos para dentro de casa e prontamente decidimos que não abriríamos a porta quando o tal homem tocasse. E ele tocou. Tocou uma vez, tocou duas, tocou três. Surpreendida com a insistência, pensei em ir lá abaixo dizer-lhe que não tínhamos interesse no que quer que ele estivesse a vender, mas tendo em conta que estava ocupada e que, se não abri a porta à primeira nem à segunda, não fazia sentido abri-la à terceira, continuei a fazer o que estava a fazer. Aparentemente, o fulano desistiu. Cinco minutos depois, quando já ninguém se lembrava do tal homem, da gravata, dos telefones e do sorriso da cor da gema do ovo, o som estridente da campainha fez-se ouvir de novo, e de novo por três vezes.

Entre a incredulidade perante a insistência e a raiva que começava a nascer-me cá dentro, estava prestes a vociferar qualquer coisa quando ouvi – pasme-se! – o homem a bater à porta com o punho cerrado. Como se quem não tivesse ouvido a campainha (e só um surdo de pedra conseguiria tal proeza, ainda por cima com o cão a ladrar como se viesse aí o fim do mundo) ouvisse, por artes mágicas, os nós dos dedos a bater na porta! Por fim a criatura marchou e nunca mais foi vista, mas ficou no ar a pergunta: que espécie de desespero leva um vendedor de telefones que anda de porta em porta, de rua em rua, a massacrar de tal maneira as campainhas, os batentes e os próprios nós dos dedos?! Que acham estas pessoas que têm assim de tão importante para dizer que não há, da outra parte, a possibilidade de simplesmente não haver qualquer interesse em ouvi-los? Ou, mais grave ainda, como é que não pensam que pode não estar ninguém em casa, porque tal como eles as outras pessoas também têm empregos e sítios onde estar durante a tarde?!

Foi então que me lembrei da minha curta – curtíssima – incursão no mundo das vendas porta-a-porta. Não durou mais do que uma manhã, e só me apanharam lá porque na entrevista de emprego em que tinha estado no dia anterior me disseram que o trabalho era na área da publicidade e da distribuição, e ninguém me falou no porta-a-porta. Disseram-me para me vestir bem, formal, e usar calçado confortável, e antes de sair do escritório, com o que depois soube serem dois vendedores, ninguém me disse para onde íamos. Mas adiante, que as técnicas de recrutamento actuais são o que todos já sabemos: diz-se o mínimo sobre direitos, explica-se bem os deveres, elogia-se a função que nos atribuem até que enjoemos dela, antes mesmo de começar, e depois percebemos, na prática, que nada era o que parecia ser. Aguentei uma manhã a andar de porta em porta com os tais vendedores de telefones. Um deles, o “chefe de equipa”, tecia rasgados elogios à minha “atitude”, dizia gostar muito da minha “postura”, “educada e curiosa”, talvez por eu fazer muitas perguntas a que ele nem sempre sabia dar uma resposta convincente.

Durante essa manhã eu apenas tinha de ver “como se fazia”. Não tinha de fazer ou dizer nada, apenas “aprender” com “a equipa”. Ainda assim, para não ser completamente enfadonho, passaram-me para as mãos um mapa com o nome das ruas que íamos “visitar” e os números de todas as portas a que teríamos de bater, sendo a minha missão anotar, à medida que avançávamos, e em cada um dos quadradinhos, se havia pessoas em casa, se tinham telefone fixo, quando pagavam de assinatura mensal e se estavam satisfeitas com o serviço. Caso ninguém abrisse a porta, tinha de assinalar no mapa que não estava ninguém e, nesse mesmo dia, teria de voltar a tocar à mesma campainha da parte da tarde. A missão era, portanto, andar o dia inteiro no mesmo quarteirão, a bater a todas as portas, a subir a todos os andares de todos os prédios, a falar com os velhotes que nos abriam as portas (durante o dia há muitos velhotes sozinhos em casa) como se sofresse de um qualquer problema mental que mantinha o sorriso amarelo como a gema do ovo cravado na minha cara, e a tentar impingir-lhes o telefone (e até tínhamos um, dentro de uma caixa, que o meu “colega” oferecia a todas as pessoas que abriam a porta, dizendo-lhes: “Este telefone é para si, é uma oferta” (que depois lhes tirava da mão quando as pessoas diziam que não estavam interessadas no serviço que estávamos a vender).

Para mim bastou. Se quisesse enganar velhotes tenho a certeza de que seria capaz de o fazer autonomamente, por minha conta e risco, gastando muito menos solas de sapatos e muito menos hipocrisia! Não estava interessada e disse logo à “equipa” que aquilo não era para mim. Uma vez mais o chefe elogiou a minha “atitude e postura”, por “ter ido observar antes de recusar”, por “não ter dito logo que não”. Tive a certeza de uma coisa: é preciso ser forte para ser vendedor de porta em porta. É preciso ser fisicamente possante, capaz de simular simpatia até ao infinito, mentir quando nos perguntam pelo intercomunicador o que queremos (porque ninguém abre a porta a quem diz que anda a vender telefones). Não é mesmo para qualquer um. Mas mais do que isso tudo, é preciso ter pouco amor-próprio também, e ajuda se formos uns grandes chatos. E chatos já vi muitos, no porta-a-porta e em muitos outros lugares que por todo o lado agora se transformam em pontos de venda de qualquer coisa. O que nunca tinha visto era um chato desesperado como o engravatado que hoje me bateu à porta. Tocar à campainha de uma pessoa meia dúzia de vezes em meia dúzia de minutos e depois ainda ousar bater à porta com os nós dos dedos não é coisa de gente normal…

terça-feira, 23 de julho de 2013

A toponímia e os candidatos às eleições autárquicas...

Que a política em Portugal - desconfio que no resto do mundo também - anda pelas ruas da amargura já todos sabemos, e que político que se preze é sempre muito, mas muito mentiroso também, mas vejam lá que agora virou moda os candidatos às autárquicas de Setembro próximo começarem a mentir assim que chegam junto das populações e se apresentam aos cidadãos! É que começam a mentir mal dizem o nome! Não acreditam? Então reparem nisto:

Basílio Horta é candidato pelo Partido Socialista. A que câmara é que ele concorre? Será à Câmara Municipal da Horta? Não. Basílio Horta é candidato do PS à Câmara Municipal de Sintra! 

E de Élio Maia já ouviram falar? Élio Maia é cabeça-de-lista de uma candidatura independente a uma câmara do Norte do País... Será a Câmara da Maia? Nã... Isso seria demasiado fácil. Élio Maia concorre à presidência da Câmara de Aveiro!

Herlander Mira. Dou um doce a quem acertar na câmara a que este senhor concorre. Alguém disse Mira?! Estará alguém a ler este texto desde o início?! Herlander Mira veste a camisola da coligação PSD/CDS mas não é a Câmara de Mira que ele quer. Nada disso! Ele quer mesmo é ser presidente em Mértola, que fica um bocadinho mais abaixo...

Envergando as cores do Bloco de Esquerda, Joana Mortágua é apontada como candidata do partido não a Mortágua, mas à Câmara Municipal de Almada...

E esta, hein? São uns enganadores estes candidatos. Mal chegam junto da populaça e se apresentam - "Olá, eu sou o Fulano de Tal" - já estão a falar de concelhos que não são os deles e de que não querem saber para nada, pelo menos por agora! Longe vão os tempos de políticos como Fátima Felgueiras, que ao menos mal se apresentavam diziam logo ao que vinham... :)

NB: Este texto é uma brincadeira e não visa ofender nenhum dos candidatos citados. 

domingo, 21 de julho de 2013

"Todas as relações são feitas de pedra"...

“Uma relação entre duas pessoas que se amam tem de se basear na capacidade de erigir um edifício. Pedra a pedra. Tijolo a tijolo. Poucas obras de engenharia são mais complexas do que uma relação entre duas pessoas que se amam. Nenhuma obra de engenharia é mais complexa do que uma relação entre duas pessoas que se amam. Nada é mais exigente fisicamente do que uma relação entre duas pessoas que se amam. Tem de haver uma entrega absoluta. Até à última gota. Para que cada pedra esteja no local certo. E por vezes há que caminhar quilómetros com essa pedra às costas para a colocar no local certo. Nem mais um centímetro à frente nem mais um centímetro atrás. Cada pedra que constróis também pode ser cada pedra que destrói, que faz derrubar todo o edifício. Todas as relações são feitas de pedra. Mas está na nossa mão. Está na mão dos dois constituintes de uma relação entre duas pessoas que se amam definir se a pedra serve para separar se a pedra serve para unir. Todas as relações são feitas de pedra. E é assim que construo. É assim que pela primeira vez construo. Estou a construir. Digo-te cada verdade e sei que estou a colocar as pedras que nos separavam nos locais certos. Para que o edifício cresça quando já estava quase a cair. Para que possas depois perceber se queres construir comigo ou se queres que tudo isto que somos caia de vez. Olho-te nos olhos e sei que choras. Sei que choras a cada verdade que te entrego, a cada pedra que te coloco nas mãos. Não sei se terás força para as suster, se terás força para as aguentar, para as suportar dentro de ti. Não sei se algum de nós conseguirá levar mais longe este edifício. Mas sei que me sinto enfim a ser eu em ti como tu sempre foste em mim. Todas as relações são feitas de pedra. Há que construir. Há sempre que construir”.

Pedro Chagas Freitas, no livro «In Sexus Veritas»

sábado, 6 de julho de 2013

Sou boa quando sou boa, mas quando sou má sou ainda melhor...


Há, entre os poucos que me conhecem bem, os que gostam muito de mim e os que não me suportam. Alguns gostam muito de mim por motivos que desconheço, mesmo até quando eu nem gosto muito deles. No extremo oposto, há os que me detestam, mesmo quando nada fiz que justifique tamanha ira. Em qualquer dos casos, é para o lado que durmo melhor. Gosto de quem gosto, tento inspirar nos outros o tipo de sentimento que nutro por eles. Se consigo, óptimo; se não consigo, paciência.

O que não entendo é aquele tipo de gente que se faz constantemente de vítima, que inventa ódios que nunca senti, que vê em mim uma fonte de inesgotáveis desamores. Eu até sou boa pessoa, juro. E tento ser melhor a cada dia que passa. Dou aos outros muito mais do que recebo deles, e mesmo assim, na hora de criticar e de insultar, com ou sem razão, é sobre mim que recai a escolha dessa gente, mesmo daqueles a quem já dei provas bastantes do meu afecto e da minha disponibilidade. Se a ideia é escolher um alvo preferencial, I'm the one! E sabem de uma coisa? I could care less. É verdade que podia não me importar. Afinal, sou o que sou e não aquilo que querem fazer de mim nessas tristes interpretações da realidade muito particular que só existe na cabeça dessa gente. Mas sempre me perturbou o raciocínio de quem vê sempre nos outros a culpa para os seus males.

De uma coisa eu sei: não sou perfeita. Longe disso. Sou boa quando sou boa, mas quando sou má sou ainda melhor. E quem se mete comigo fica sempre com histórias para contar. Os que amei hão-de amar-me para sempre. Os que poderia ter odiado - mas que optei por apenas ignorar - hão-de para sempre lembrar-se de mim. Felizmente, e a idade tem-me ajudado nisso, sou mais de perdoar do que de revidar. Não perco tempo com a mesquinhez alheia. Vivo melhor assim. Quando a minha paciência acaba tendo a ter mau feitio, mas para já, para meu bem e para bem de todos, opto pelo silêncio. É sempre uma boa arma. A quem me ataca, num acesso de umbiguismo sem precedentes, fica dado o recado: quem vai à guerra dá e leva, e um dia veremos quem ganhou a maior parte das batalhas. Não tenho medo desse julgamento.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Já falta menos de uma semana...

Despenteados amigos, já falta menos de uma semana para o dia do meu aniversário. Serão 37 os verões que completo, num ano que nem com a Primavera parece querer grande coisa, pelo que acho que mereço presentes dignos desse nome! Pela lógica, deveria listar aqui 37 presentes de sonho, para tornar mais fácil a vossa escolha (não quero que vos falte nada)! Mas como não sou assim tão exigente, e no fundo preocupo-me com a vossa saúde financeira, contento-me com estes cinco presentes que elenco aqui. Com a certeza de que, qualquer que seja a vossa escolha, sabereis certamente que o vosso presente me fará muito feliz! :)

1. Audi A3 E-Tron
(também pode ser o RS que eu não me aborreço)...


2. Blackberry Z10
(também pode ser o Q10, que eu ainda resisto um cadito aos telemóveis de teclado virtual)...


3. Aple MacBook Pro
(para este presente não incluo segunda escolha, porque é mesmo isto)...


4. Câmara fotográfica Nikon D7100
(ou outra de igual pompa e circunstância)...


5. Uma aparelhegenzinha Bang & Olufsen
(para dividir com o maridão, que é fã da marca, mas porque não quero que ele tenha de trabalhar umas sete vidas e meia para poder comprar uma)...


E pronto! Está a lista feita. Muito obrigada e até para o ano! :)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Liberdade...


Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunis
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Dur miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté

Liberté | Paul Eluard (1895-1952)




sexta-feira, 22 de março de 2013

Sócrates, marisco, leitão e outras iguarias…


Sou, desde que me conheço, uma pessoa diferente das outras. Não sou melhor nem pior do que os que me rodeiam, mas sou definitivamente diferente, e destaca-se nessa minha idiossincrasia a capacidade de gostar do que poucos gostam, ao mesmo tempo que não gosto daquilo que outros julgam ser maravilhas. Na escola os meus professores preferidos eram sempre aqueles de que a maioria da turma não gostava. Nos empregos que tive gostei sempre das pessoas mais polémicas, das aparentemente menos simpáticas, mas nunca das que faziam da preguicite o seu lema de vida e da má qualidade o rosto do seu trabalho. Era já adolescente quando comi pela primeira vez uma fatia de queijo, porque antes disso, mesmo nunca tendo provado, garantia que não gostava de queijo. Da mesma forma digo agora que não gosto de marisco, sendo que nunca provei qualquer tipo de marisco. Sei que nunca provarei, porque decidi que não gosto. Também não gosto de leitão, que faz as delícias da maior parte das pessoas que conheço, e certa vez, mesmo estando esganada de fome, não fui capaz de ir além de meia sandes do dito. Nem de caracóis, que também nunca provei. São coisas! 

Politicamente gosto de José Sócrates. Não, não sou socialista, e irrita-me que toda a gente pareça pensar que é preciso ser socialista para gostar de Sócrates. Também gosto de Honório Novo, e não sou comunista. E também gosto de João Teixeira Lopes e de José Soeiro, e isso não faz de mim bloquista. Por que carga de água é que ter admiração por Sócrates há-de fazer de mim socialista, alguém me explica?! E por que é que toda a gente gosta do que gosta, mas quem gosta de Sócrates tem de ser atacado, até por quem gosta de Passos Coelho, Miguel Relvas e Vítor Gaspar? E como é que alguém que gosta destes três acha que pode criticar quem gosta do que quer que seja?! Por que é que as pessoas não podem gostar do que gostam em paz e sossego, sem que venham logo, de todos os lados, dezenas de vozes, supostamente moralizadoras, dizer “não entendo como podes gostar desse gajo”. Mas alguém se preocupa em perceber por que é que eu não gosto de leitão ou marisco, e por que razão gosto muito de morangos, cerejas, caldo verde, presunto e mini-tostas com queijo de ervas?! Então, se fizerem o favor, parem lá com os moralismos bacocos e deixem-me em paz, com os meus gostos e os vossos desgostos. E metam na cabeça, de uma vez por todas, que gostar de Sócrates não é ser socialista! Ajuda se vos disser que não gosto de rótulos e cores e bandeiras? E se vos disser que não gosto de António José Seguro? 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

De como um texto jornalístico colabora numa fraude...

FOTO: MENTE DESPENTEADA

É absolutamente notável! Este homem, abusivamente considerado um lutador neste artigo do «Jornal de Notícias» de hoje, chama-se Ricardo Frade, mas podia muito bem chamar-se Ricardo Fraude! Então diz a criatura que vai partir numa "viagem ultra-low-cost" até Skelleftea, na Suécia, sem dinheiro e recorrendo apenas à imaginação: "Vou ser só eu e a capacidade inata do ser humano de improvisar e resolver problemas", assegura ele. Conta depois como surgiu a ideia, de uma teima com o pai, e garante que com isto quer "fazer algo pelo nosso país, por todas as pessoas que não sabem como lidar com as tremendas dificuldades que estamos a viver". Pelo meio, a julgar pelo que se escreve no antetítulo, ainda critica os que "vivem obcecados por pseudonecessidades e que podiam ser mais felizes com menos dinheiro e mais improviso".

Pois muito bem! Estava eu a ler este texto quando, no último parágrafo (o esquema da pirâmide invertida na construção de um artigo jornalístico permanece um mistério para muitos jornalistas), leio o seguinte: "A partida está programada para 6 de Fevereiro, mas carece ainda de um empurrãozinho. É preciso dinheiro para a passagem de ida (só o regresso é que será de mãos a abanar)...". Lindo, não é? Digam lá que o homem não é imaginativo! É tão imaginativo que consegue levar uma jornalista a escrever um texto em torno da alegada imaginação que torna desnecessário o dinheiro que acaba... a pedir dinheiro! Fabuloso! Este fulano não tem lata. Tem um latão! 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Loja do Cidadão, porque há lá muitos!

Ontem percebi, com clareza e exactidão, por que razão nada funciona como deve ser em Portugal. É que, se há ditado popular que acerta em cheio na realidade portuguesa, é aquele do "cada cabeça, sua sentença". Vai daí, ninguém se entende, toda a gente se desentende, perde-se tempo precioso para tratar de uma qualquer porcaria sem jeito e no fim fica tudo na mesma. Recapitulemos: há cerca de 10 dias fiz um negócio de que, por circunstâncias várias, me arrependi. Indaguei a outra parte interveniente no dito negócio, que de imediato aceitou desfazê-lo.
Acordámos uma data para nos encontrarmos e procedermos à troca do bem transaccionado pelo dinheiro pago, e vice-versa. Na véspera desse encontro, e de forma consciente e muito responsável, a outra parte interessada foi saber concretamente quais os procedimentos legais a tomar para anular o negócio. Foi-lhe dito que seria melhor irmos ao mesmo notário onde tínhamos celebrado o registo de propriedade, pois lá seria fácil e rápido pedir a anulação do negócio, o que evitaria inclusivamente a realização de novo registo e o consequente pagamento do mesmo.
E assim foi. Lá fomos nós. Chegadas ao notário (o tal que tinha prestado as tais informações), fomos informadas de que, afinal, não era bem assim. Afinal, o registo tinha ido parar a Lisboa e era preciso ligar para a conservatória para pedir que parassem o processo e anulassem o negócio. O telefone bem tocou, mas do outro lado nem sinal de vida! Ficámos a saber que é sempre assim. Que "em Lisboa é raríssimo atenderem o telefone", e que, "se calhar, era melhor enviar um e-mail", sendo certo que o tempo de resposta dependeria exclusivamente do tempo que a pessoa que não tinha tempo para atender o telefone tivesse para ler o e-mail e responder ao mesmo. Em vez disso, fomos aconselhadas a ir à Loja do Cidadão mesmo em frente, pois "eles têm acesso à base de dados e conseguem resolver o problema". Atravessámos a rua, entrámos na Loja do Cidadão. E então percebi por que é que aquilo que chama assim. Não é porque lá se venda cidadãos, nada disso! Mas que há lá muitos, quase sempre muito enfadados e com ar de quem está prestes a explodir de raiva, isso há!
Esperámos duas horas. Duas horas para que a única funcionária disponível para o atendimento daquele tipo de questões passasse do cliente 20 (o número em que ia a lista de chamada quando tirámos a nossa senha) ao cliente 37, que éramos nós. Duas horas! Ao fim desse tempo, perdido por duas pessoas com muito mais o que fazer do que aquecer cadeiras numa sala de espera, soou a campainha e era a nossa vez. Em muito menos tempo, verdade seja dita, ficámos a saber que tínhamos de facto perdido todo aquele tempo ali. Pois "não era ali que tínhamos de resolver o problema", pois que "o notário nos tinha despachado, porque fazer um negócio é muito mais fácil do que desfazê-lo", pois que "era preciso ligar para Lisboa, mas lá nunca atendem o telefone". Senti a raiva a crescer dentro de mim, mas controlei a vontade de insultar aquela gente toda para perguntar como é que se resolvia a questão, se no notário nos tinham mandado para ali, e se ali diziam que no notário é que a coisa se resolvia. Tínhamos de "enviar um mail para Lisboa". Aliás, "tinha de ser o notário a enviar o mail, porque foi no notário que o registo foi feito"...
Atravessámos de novo a rua, entrámos no notário. Espantadas por ainda andarmos com os documentos de um lado para o outro, tentaram "ligar para Lisboa, que nunca atende o telefone". Conseguiram perceber, da mesma forma que na Loja do Cidadão também já tinham percebido, que o registo ainda não foi concluído e que, como tal, o negócio ainda não estava feito. Mas como "em Lisboa nunca atendem o telefone", restava enviar o tal mail, "a ver se ainda íamos a tempo de anular o negócio", mas que "seria muito difícil", e que mais valia, talvez, deixar que o negócio se consumasse, os registos fossem enviados para minha casa, e depois ir lá de novo, fazer novo registo, e pagar de novo, celebrando novo negócio, invertendo aquele que queríamos anular e que ainda não estava legalmente consumado. Perceberam? Nós também não. Há um negócio que legalmente ainda não está registado, e que como tal ainda não existe, e duas pessoas que querem desfazer o negócio, mas não pode ser desfeito porque "Lisboa nunca atende o telefone".
Resultado: viemos embora com o negócio por desfazer, embora na realidade ainda não esteja legalmente feito, e com a incumbência de lá voltarmos para, uma vez que seja feito, o desfazermos. E isto tudo porque "em Lisboa nunca atendem o telefone". Assim se funciona em Portugal. De mãos atadas.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012, um ano para esquecer...


Começo o meu balanço de 2012 com uma notícia trágica: um homem foi hoje colhido por um comboio numa estação próxima daquela em que me encontro neste momento. Não creio, e as famílias deste e de tantos outros cidadãos que ao longo deste ano perderam a vida em Portugal em circunstâncias idênticas que me perdoem se não tiver sido o caso, que todas estas mortes tenham ocorrido por acidente ou por mera distracção. É rara a semana em que não ocorre uma colhida fatal por um comboio neste país, e em 2012 isso foi bem patente. São demasiados os casos para que possamos explicá-los com teorias de acaso ou de fortuitos momentos de distracção. Talvez este ano tenha sido negro para estas pessoas. Sei que foi um ano negro para mim. Nesta altura de balanço, talvez estas pessoas, que nem conheço, se tenham precipitado numa decisão final, fatal, preferindo morrer esmagadas por comboios do que continuar a viver esmagadas pela crise, pela miséria e pela fome, pelo aumento do curso de vida, pelos empréstimos contraídos e que deixaram de poder pagar, pelo desemprego galopante, pela falta de oportunidades, de uma família, de um amor até! Porque sim, este foi um ano negro.

Foi um ano negro de luto, porque se cheguei a Janeiro na sombra da morte do Nero, um fiel amigo de quatro patas e de 13 bonitos anos, e se em Fevereiro perdi, fruto de convicções erradas que me levaram a um negócio ruinoso, o meu amigo de quatro rodas e de outros tantos anos, despertei realmente para o drama em que este ano se tornaria, e em que tornaria toda a minha vida daqui em diante, quando em Março, em pleno Dia do Pai, vi partir para sempre o meu, antes mesmo de poder felicitá-lo e beijá-lo por essa ocasião.

Com o meu pai morri eu também, morreu a minha alegria de viver, o meu sorriso, a minha vontade de existir sequer. Porque o meu pai era meu amigo, meu mentor, meu ídolo, meu exemplo de vida, de força, de coragem e de bravura. O homem que nunca baixou os braços, que nunca deixou de ser o esteio de uma família, que nunca abandonou a luta por uma vida melhor, mesmo quando a vida o rasteou, trouxe-me o sabor amargo, intragável, de uma saudade até então desconhecida. De uma dor que, venha o que vier, será sempre inigualável. O meu pai, que a morte inesperadamente levou a 19 de Março de 2012, com apenas 57 anos e o que parecia ser uma saúde de ferro, ficará para sempre na memória dos que tiveram a felicidade de um dia poder privar com ele. E a sua partida pintou de negro, para sempre, este ano e toda a vida que me restar.

Dois dias depois, quando sepultávamos o meu pai, e entre a maior dor que alguma vez conhecemos e a tentativa de segurar na mão dos que, incrédulos como eu, ainda recusavam acreditar naquele desfecho, vimos partir para junto dele a Luna, um pedacinho de céu, fofinho e amoroso que, na pele de uma linda coelhinha, vivia cá em casa. Fofa e quente como todas as criaturinhas da sua espécie, teve também ela uma vida sofrida, antes de a acolhermos, e partiu naquele horrendo mês de Março, dois dias depois do meu pai. Em Abril, no dia 13 – anagrama do 31 de Agosto em que nasceu, o cancro levou-me a minha querida Tia Graça. Uma das pessoas mais bonitas que conheci, a melhor tia que alguém poderia ter ou desejar, uma pessoa sublime na sua generosidade e entrega aos outros, dona de um sorriso desarmante mesmo a poucos dias do fim, que foi para junto do meu pai três semanas depois de ele ter partido e de ela, no funeral dele, ter dito que seria a próxima a partir. E foi. Pouco tempo depois, tomada por uma pneumonia, morreu a Cheesy, a hamster mais linda que alguma vez existiu, que meses antes resistira estoicamente a uma cirurgia a um quisto, fintando as elevadas probabilidades de morrer na mesa do veterinário. Ironicamente, morreu de pneumonia…

Em Novembro, e para acabar o ano na "beleza" que o caracterizou, vi-me privada da minha (Su)Catita, violentamente abalroada por um Audi conduzido por um fulano que preferiu baixar-se para apanhar um telemóvel que lhe caiu da mão enquanto conduzia a parar num semáforo. Projectando-se contra a traseira do meu Opel Corsa, que por sua vez foi atirado contra a carrinha que também estava parada no semáforo à sua frente, o Audi mandou para a sucata, fazendo jus à alcunha carinhosa que eu lhe tinha dado, a minha voiture. E assim perdi, por razões diversas, mas no mesmo ano, dois automóveis de que gostava. Sem culpa alguma em qualquer dos casos...

Ao longo deste ano, dentro e fora de casa, vi partir muita gente e seres não humanos mas cativantes. Vi amigos passarem pelo mesmo drama que como um raio atingiu a minha família, e acompanhei a dor de pessoas conhecidas que perderam os seus entes queridos. Ganhei consciência, como antes nunca tinha tido, de que a vida é mesmo uma passagem, frágil e temporária como tantas outras coisas em nós. E isso doeu. Doeu perceber que não somos senhores de nós, nem dos que amamos, que não basta querermos muito para que alguém possa ficar para sempre junto de nós. Dói-me a fragilidade de que somos feitos, e que agora conheço tão bem! Aos meus amigos e conhecidos que, como eu, perceberam em 2012 que não há força que segure a morte, e que perderam pessoas que amam, fica o meu abraço, e a certeza de que sei o que sentem. Que lamento a dor por que passam, e que sinto, tal como eles, que essa dor nunca passará. Tentem, como eu tenho tentado, acordar todos os dias com um sorriso. Sei que não será fácil, que nem sempre será possível, mas tentar é melhor do que não tentar. E quando não conseguirem sorrir ao acordar, saibam que não estão sozinhos.

O negro do luto cobriu este ano com uma crueldade peculiar, e até as estatísticas o confirmam. Nunca, desde há muito tempo, tinha morrido mais gente do que aquela que nasceu. Aconteceu agora, em 2012. E a cada notícia de uma nova partida, a mesma fatal exclamação: “Este é um ano negro”. Em Outubro morreu Manuel António Pina. A escassos dias de completar 69 anos, partiu uma das pessoas a quem devo muito daquilo que sou, por ter sido ele quem, atento ao meu desempenho durante três meses de estágio no «Jornal de Notícias», apadrinhou a minha continuidade na empresa, no arranque da minha carreira como jornalista. Obrigada, meu querido amigo. Terás sempre a minha gratidão, pelo que me permitiste ser, e me ensinaste a ser, mas também por seres um elo mais de ligação com o meu pai, que como eu admirava a tua pessoa e as tuas ideias, as tuas crónicas e o teu modo de encarar a vida e de nos ensinar a vê-la com olhos de ver. Obrigada, querido amigo, por seres um exemplo e uma referência na minha vida! Nunca te esquecerei!

E para terminar o ano na “beleza” que o caracterizou, em Novembro fiquei privada da minha SuCatita, abalroada por um Audi desgovernado, conduzido por um distraído que se baixou para apanhar o telefone que lhe caiu das mãos enquanto conduzia, ali para os lados da Trofa. Ficam as saudades, que nada mais me resta dela…

Por estas e por muitas outras razões, menos pessoais mas igualmente graves, 2012 foi um ano negro e Portugal está de luto. De luto e em luta. Que 2013 vença todas as adversidades e seja, verdadeiramente e em todos os aspectos, um ano ímpar. Feliz Ano Novo!


ADENDA
Mas para contrabalançar, porque o ano foi péssimo mas nem tudo foi mau, saliento a entrada na minha vida, logo em Janeiro, do Odie - o cão adoptado pela minha irmã mais nova, e por essa via meu novo sobrinho -, bem como a presença constante, ao meu lado, dos que mais amo e dos amigos de sempre. Pessoas boas cujo sorriso e os gestos, como há dias me dizia uma dessas amigas, valem mais do que barras de ouro! 

domingo, 16 de dezembro de 2012

Neste ano não há Natal...


Falta pouco mais de uma semana para a noite da consoada, e por todo o lado há Natal a saltar das montras das lojas, há gente a correr com sacos e pacotes, com fitas e laços, com listas de presentes que, apesar dos tempos difíceis, não ficarão por comprar. Todos os anos, por esta altura, costumo ser uma dessas pessoas. Por esta altura, o pinheirinho - que todos os anos costumava ser enfeitado no dia 1 de Dezembro, mas que desta vez apenas ocupou o seu lugar no passado dia 13 - tem habitualmente a seus pés alguns embrulhos e algumas caixas, de várias formas e tamanhos, coloridas e alinhadas com desvelo e carinho. Desta vez não é assim. Tardiamente colocado no seu posto, o pinheiro permanece apagado, sem presentes a acompanhá-lo nestes dias. Falta-me o espírito natalício. Falta o Nero a morder as fitas e a atirar ao chão as bolas. Falta o meu pai - o grande entusiasta desta quadra cá em casa - a abanar os presentes, a tentar adivinhar o que está dentro dos pacotes com o nome dele, a lançar as suas suspeitas e, muitas vezes, a acertar no conteúdo das prendas que lhe comprávamos. Falta-me o meu pai. E falta-me o Nero, que já fez falta no nosso Natal do ano passado. Falta-me a vontade de ver a mesa enfeitada, falta-me a inspiração para comprar presentes, falta-me a luz das ruas a dançar-me nos olhos e a música a tocar-me na alma. Falta-me o Natal, na verdade. E a pouco mais de uma semana da noite da consoada, há em mim a urgência de sentir a alegria que era usual nestes dias. Alegria que sei que não terei. Neste ano não há Natal.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Para ti, Pai!


Não sei dizer-te adeus. Ainda é cedo, demasiado cedo, para deixares vazio este lugar que é teu. Para partires, de repente, arrancado assim aos tantos abraços que ainda queria dar-te. Passaram sete meses, pai, e o bater do meu coração continua a bater-me, como uma pancada seca, um grito mudo que se afoga nas minhas entranhas e que me devora o peito, a alma, o pensamento. Um som inaudível que me enlouquece. Um vazio que me preenche. Um frio que me racha por dentro, que me cristaliza as lágrimas, que me sufoca e me impede de respirar. O teu lugar é aqui, ao meu lado, no aconchego desta casa que é nossa. E no entanto não estás aqui, senão em todas as coisas e em todos os lugares. Há sete meses que não estás aqui, ainda que a tua ausência seja a mais presente das minhas poucas certezas. Hoje quero abraçar-te, ainda mais do que quero todos os dias, e envolver-te nos meus braços como naquele hediondo início de tarde, e quero ver-te acordar finalmente. Sorrir como sorrias. Há sete meses que espero, pai. Espero por um sinal teu. Uma estrela mais brilhante no céu, uma música que irrompe num lugar inusitado, um calorzinho nas mãos quando toco algo que te pertenceu. Sinto às vezes uma brisa no rosto. Leve, como um beijo pousado em silêncio. Penso que és tu. Quero pensar que és tu. Falo-te, mas não respondes, pelo menos na mesma língua. E sonho. Sonho que te abraço enfim, e que estamos de novo juntos, desta vez para sempre. Amo-te, pai! E morro um pouco a cada dia que passa. Morro de saudades.

31 de Outubro de 2012, dia 227

domingo, 9 de setembro de 2012

Da "geração mais bem preparada de sempre"...


Irrita-me solenemente ouvir dizer que os jovens de hoje constituem "a geração mais bem preparada de sempre" (isto quando não dizem que esta é a geração "melhor preparada" de sempre, porque isso então faz-me querer pôr uma bomba em alguns cérebros). Afinal, os jovens de hoje estão preparados para quê? Olhem bem à vossa volta e analisem, por alguns minutos, os comportamentos, e sobretudo as conversas, dos jovens de hoje. Metade (para ser bondosa) não sabe dizer nada. Não é capaz de ter uma conversa com cabeça, tronco e membros, nem é capaz de dissertar, ainda que breve e superficialmente, sobre qualquer tema da vida social, cultural, política ou económica contemporânea.
Os jovens de hoje sabem fazer de tudo com um iPod, um iPad ou um iPhone. E todos querem ter uma ou várias coisas dessas. Sabem sacar filmes e músicas na internet, sabem ludibriar os pais para que estes lhes dêem tudo aquilo de que precisam e, mais ainda, de tudo o que apenas eles acham que precisam. Sabem beber até cair, sabem fazer figuras tristes nas ruas, quando bebem e muitas vezes sem beberem. Sabem onde e a quem comprar drogas, e mesmo que não tenham dinheiro para comer, arranjam-no sempre para a dose, para a "cuca", para o café e o tabaco, para a 15ª tatuagem ridícula, para o piercing e para as calças de marca, que muitos usam a cair pelo rabo!
Dir-me-ão que o meu discurso é o de uma avozinha, e que nem todos os jovens são iguais. De acordo. Não tenho a pretensão de os conhecer todos. Seja! Mas queremos mesmo falar de percentagens no que toca às competências dos jovens de hoje? E já agora, os que não são assim - os que se portam bem, que estudam e progridem sem incidentes de maior na sua vida académica, estão preparados para quê? Por mais estudioso e trabalhador que um jovem de hoje seja, saberá fritar um ovo sem perguntar à mãe quais são os ingredientes para essa "receita"? Saberá preencher sem ajuda os impressos do IRS? Saberá mudar um pneu no caso de viajar sozinho e ter um furo? Ou fará aquilo que em tempos um amigo me disse que fazem todas as mulheres, que, diante de um pneu furado, "apenas podem chamar um homem"?!
Afinal, para que estão assim tão bem preparados os jovens de hoje? Estarão preparados para as angústias de que também se faz a vida moderna? Estarão preparados para o desemprego, para administrar uma casa, para criar uma família, para responder, sem frustrações e depressões, a todos os desafios que lhes são impostos pelo simples facto de estarem vivos? Estarão preparados para decidir o futuro desta geração e das que se lhe seguirão? Estarão preparados para assumir as consequências dos seus actos e das suas escolhas? Por que é que acho que não? Por que é que acho que as pessoas resumem o "grau de preparação" de uma geração ao número crescente de anos que essa geração andou na escola, muitas vezes apenas a passear os livros, sem qualquer resultado prático desses passeios?
E os que abandonam a escola porque não obtêm resultados, ou porque as famílias precisam do contributo deles, diminuto que seja, para porem comida na mesa? E os que, mesmo estudando e atingindo até elevados níveis de ensino, são incapazes de entender uma anedota simples sem a devida explicação de quem a conta? E os que chegam aos 40 anos a depender totalmente dos pais, e às vezes de avós e tios, que nunca na vida trabalharam ou tiveram maior responsabilidade do que a de sair da cama a tempo de que outra pessoa lhes arrume o quarto? Sim, há jovens assim. Sim, são muitos. Fazem parte desta geração, fazem. Preparados? Disso é que tenho muitas - mesmo muitas - dúvidas...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Foi bom enquanto durou! Ou então não...

Quatro dias bastaram para que fosse a uma entrevista e passasse da condição de desempregada de longa duração à de empregada, e novamente ao mesmo estatuto. Lamentavelmente, não sou uma super-mulher, e não aguentei o duríssimo teste de resistência física e mental que é trabalhar numa loja (que na verdade são duas) de sandes, saladas e sopas. Antes de mais, a devida homenagem a todas as mulheres que fazem disso o seu quotidiano, porque é de facto um desafio hercúleo. Permanecer horas e horas de pé, sempre na mesma posição e a realizar vezes sem fim os mesmos exactos movimentos, não é coisa fácil. Estar horas e horas a lavar louça (que nunca pára de chegar porque há sempre gente a sujar), jornadas intermináveis de exercícios como desfiar frango, triturar maçãs e delícias do mar, fazer pastas de atum, frango e delícias, aprender a funcionar com fornos e fritadeiras industriais, limpar fornos e fritadeiras industriais, desmontar máquinas de sumos e limpar todos os componentes e parafusos, acondicionar frigoríficos e câmaras, limpar frigoríficos e câmaras, limpar tudo, sujar tudo e voltar a limpar tudo, varrer, passar o chão a pano, decorar os lugares de todos os objectos e as dezenas de procedimentos diferentes que compõem o quotidiano de um restaurante onde tudo é feito todos os dias, e depois ainda servir sandes, sopas, saladas, bebidas e sobremesas com um sorriso no rosto é, para o comum dos mortais (como eu), uma prova de fogo. Que não superei.
Aprendi imenso nestes quatro dias, acreditem. Sobre o funcionamento de centros comerciais e restaurantes, mas acima de tudo sobre as pessoas e sobre mim. Foi bom sentir-me útil novamente, porque o desemprego consome-nos, principalmente se sempre fomos pessoas de trabalhar, de nos mexermos, de estarmos sempre a fazer qualquer coisa. Mas não estive à altura deste desafio, e lamento-o profundamente, porque sei que há pessoas que contavam comigo, e porque sei que o salário ao fim do mês, ainda que diminuto, daria jeito. Mas não fui capaz de continuar. Quem, como eu, sofreu uma tromboembolia pulmonar há quatro anos, e que quase morreu por causa disso, sabe os malefícios que podem advir de estar horas e horas de pé, sempre na mesma posição, com as pernas a inchar e as dores a subir e a instalar-se em todo o corpo. Não há maneira de definir estes dias que passaram senão como o inferno na terra. Não, nem tudo foi mau. Claro que não. Conheci algumas pessoas interessantes, dinâmicas e muito competentes, que além de tudo o que me ensinaram, e de curtas histórias e lições de vida que generosamente partilharam comigo em duas ou três conversas mais ou menos fugazes, me mostraram que em todas as coisas há sabedoria, profissionalismo, qualidade. Gostei de conhecer a Bina e a Regina, principalmente estas duas, porque são pessoas dignas de serem exemplos para a maioria dos portugueses, pelo seu carácter e capacidade de entrega a um projecto, e por valorizarem o esforço que fiz e a pessoa que sou. Obrigada às duas por isso.
Aos que desiludi pelo falhanço na minha resistência física e psíquica, peço desculpa. Ao meu pai, de quem sempre julguei ter herdado a força e a coragem para aguentar os momentos menos bons; à minha mãe, por continuar a ser incapaz de a ajudar no seu esforço diário para suportar as despesas de uma casa; às minhas irmãs, por não ser capaz de lhes dar um exemplo de coragem, de força e de dinâmica na superação das minhas muitas limitações; ao Luís, por tê-lo desiludido naquilo que pretendia ser um investimento no meu e no nosso futuro; a todos os que, de uma forma ou de outra, acreditaram que eu seria capaz e me desejaram sucesso e felicidades. Foi bom enquanto durou! Ou então não...

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Diana de Gales morreu há 15 anos...

Há precisamente 15 anos, no dia 31 de Agosto de 1997 (tinha então 21 anos), estava acampada no Parque de Campismo Sereia da Gelfa, perto de Vila Praia de Âncora. Pouco depois de acordar, e quando me preparava para mais um dia de praia e descontraídos passeios por aquela zona, ouvi, no rádio de uma caravana vizinha, com o volume de som demasiado elevado, a notícia da trágica morte de Diana de Gales, a princesa cuja beleza e elegância tantas vezes tinha admirado em miúda. A notícia abalou-me. Não porque alguma vez a tivesse conhecido, mas porque Diana de Gales tinha, naquela altura, a idade que tenho hoje – 36 anos –, e quando temos 21 anos ninguém para nós morre aos 36. Ou aos 40. Ou aos 50… 

Lembro-me de, por aqueles dias, ter assistido, vezes sem conta, às imagens do aparatoso acidente que a vitimou, quando o carro em que seguia embateu, a grande velocidade, num dos pilares de uma ponte em Paris. Lembro-me dos rostos de William e Harry, e de ter pensado que os príncipes, por uma questão de protocolo bacoco, não deveriam chorar. Pensei que seria impossível a um filho não chorar a morte da mãe, nomeadamente se ocorrida em tão violentas circunstâncias. Lembro-me das imagens do funeral, dos britânicos chorando nas ruas, das flores e das velas que aqui e ali se colocava junto a imagens da princesa. Quase senti que a conhecia, que era visita lá de casa. Lady Di, conhecida e prestigiada mundialmente pelo seu envolvimento em causas solidárias em todo o mundo, deixou em todo o mundo um sentimento de profunda tristeza quando partiu. A 31 de Agosto de 1997. Há precisamente 15 anos, quando tinha a minha idade…  

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Não há espaço para gordinhas no meu léxico!


Há coisas que me irritam profundamente nas pessoas (tantas, tantas coisas). Uma das mais importantes, das que me irritam mais, é aquela mania que as pessoas têm de julgar as outras apenas pela sua imagem, pelo aspecto exterior (bom ou mau), pelo que se apreende no imediato e sem qualquer esforço. Como se um livro mostrasse o que vale apenas pela capa (que até pode ser entregue a um designer manhoso, que nada tenha a ver com o promissor autor da obra, mas pronto...), e fosse indiferente, depois de apreciada essa capa, cada uma das palavras grafadas nas páginas que compõem a obra propriamente dita. Outra coisa que me irrita muito nas pessoas é a tendência para os eufemismos: se um amigo apresenta a outro uma mulher feia, ele diz que ela é "simpática" (que é o que se diz de quem não inspira nada melhor a dizer); se uma amiga corta o cabelo e fica a parecer uma esfregona, a outra diz-lhe que "não está mal, mas eu não era capaz de cortar assim"; se uma mulher é gorda, logo há quem se apresse a dizer que as "gordinhas" são mais felizes, porque comem tudo o que querem e não se reprimem pela ditadura da moda.

Alguns pontos prévios:

- Uma gorda é uma gorda. Não é gordinha, nem rechonchudinha, nem redondinha, nem cheinha (que é uma coisa que nem sei escrever). Acho execrável esta coisa dos "inhos", que me faz sempre pensar que é de uns coitadinhos que estamos a falar, quando há mulheres gordas lindíssimas e que, como mostra a imagem acima, até são mais interessantes para algumas pessoas;

- Não vejo por que carga de água é que alguém tem de explicar aos outros que gosta disto ou daquilo e, pior ainda, por que é que tem de perguntar se há um problema nisso. Cada um gosta do que gosta, e quem não gostar da pinga que faça o favor de mudar de tasco! 

- É falso que alguém prefira as gordas, e percebe-se facilmente porquê: as gordas são exactamente iguais às magras, só que maiores. Como acontece nas magras, há nas gordas mulheres muito e pouco interessantes, há mulheres bonitas e feias, há mulheres com e sem carácter, há mulheres que cativam e mulheres que repelem. Mais do que uma imagem, a sensualidade é uma atitude, e há quem tenha e quem não tenha, seja de que tamanho for, a atitude que seduz e que conquista.

- Mas, mesmo que fosse possível a alguém afirmar que prefere as gordas, como se as preferisse a todas, sobre todas as magras, apenas porque são gordas, o simples facto de perguntar "qual é o problema?" dá-me urticária. Por que é que o facto de gostar de gordas tem de ser um problema, alguém me explica?!

Posto isto, convém esclarecer que, como pessoa gorda que sou, detesto que me chamem "gordinha", e que, como me disse um dia um amigo, me digam que é gira a forma como brinco com os meus defeitos. Tive de lhe explicar que ser gordo é apenas ser gordo. Aos gordos não falta nenhum braço, não falta nenhuma perna, não falta um olho ou um nariz, e não falta - pelo menos em maior proporção do que nos magros - um cérebro e uma capacidade de o usar. Da mesma forma, nem todas as pessoas que são gordas são gordas por comerem desalmadamente. Algumas têm problemas físicos, outras têm distúrbios mentais e alimentares, outras são apenas preguiçosas e despreocupadas, e outras há (pasmem os mais cépticos) que são felizes como são. Exactamente assim, com quilos a mais e com regueifas e estrias.

Da mesma forma que nem todos os magros são bonitos (há cabides com olhos que, a meu ver, são tão interessantes como uma minhoca num pacote de arroz), também nem todos os gordos são feios. Parem, por isso, de ter pena deles, e de os tratar como se fossem aberrações. Os gordos são pessoas. Os "gordinhos" só existem na cabeça das pessoas que têm medo de usar as palavras.Uma mesinha é uma mesa pequena, um cãozinho é um cão pequeno, uma camisolinha é uma camisola pequena, um carrinho é um carro pequeno. E uma gordinha, o que é? É uma gorda pequena? Não, pois não? É que gordas pequenas é coisa que nem existe, sendo "gorda" uma palavra que nos empurra logo para algo grande.

Dêem os nomes aos bois, meu povo! Deixem as gordas serem gordas, inteiras e grandes, e parem de usar eufemismos patetas! Até porque mais simpático para as gordas seria que parassem de lhes lembrar a toda a hora que são gordas, porque as gordas têm espelhos em casa e sabem disso. Chamar-lhes gordinhas não as diminui por magia, nem diminuiu o facto, incontornável, de serem o que são. Gordas.